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Palavras por dizer

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Uma coisa tão simples e natural como a morte, pode ser ao mesmo tempo uma das coisas mais complexas e difíceis de entender. Sobretudo quando se sente a ausência de quem partiu em toda a sua força. Aquilo que me dói mais na morte não é a ideia do fim ou do deixar de existir. Dói-me muito mais o tempo que se ganha, com a ausência, para se poder preparar as palavras certas a trocar com quem já não as poderá receber. Com esse tempo ganho, imaginam-se os momentos em que se disse tudo aquilo que havia por dizer. As frases saem completas. Ricas. Vírgula por vírgula. Ponto por ponto. Tudo isto porque a ausência total de alguém importante faz-nos perorar sobre aquilo que devia ter sido dito e não foi. Está a fazer quatro anos que o meu pai morreu. Parecem-me décadas, estes quatro anos, porque o tempo tornou-se lento de propósito para que eu pudesse avaliar a importância que ele tinha na minha vida. As palavras que eu não disse ao meu pai, vou guardá-las para mim para lhes dar corpo com as mi...

O erro

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Aprendi na escola que o mundo é redondo. Mas não é. O mundo é curvo e por vezes é disforme. Tem muitos lados. Faz muitos ângulos e muitas vezes até faz um triângulo. Nesse triângulo passamos a vida a calcular a hipotenusa. Umas vezes conseguimos. E outras vezes perdemo-nos a fazer o cálculo. E quando erramos, nem sempre é fácil culpar Pitágoras. Ou pedir satisfações a Galileu. Às vezes o mundo é perfeito e traz brilhos ao olhar. Sentem-se estrelas cadentes dentro de nós, mas depois vem a chata da trovoada e leva aquilo que tinhamos de bom. Lá se foram as estrelinhas e a leveza do Ser. Mentiram-me. O mundo não é redondo! Não é uma bolha de sabão perfeita e lisa. De bolha, o mundo só tem a metáfora. Pode rebentar com um sopro. Pode desfazer-se e temos de tentar fazer outra. Quem me disse que o mundo era uma esfera, não sabia que ele pode ser um quadrado. Pode até ser uma jaula. Pode ter quatro lados e pode prender-nos a uma ideia, a um jogo de vontades ou a um (pre)conceito. O melhor q...

Quando cheira a Natal

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Quando o cheiro a Natal começa a dançar pl'o ar, lá vem o musical mais natalício do mundo: "The Sound of Music". Lembro-me de o ver anunciado na RTP quando eu era pirralho e, mesmo depois de crescido, ao longo dos anos sempre na mesma quadra, lá vinha ele, por vezes a saltitar pelos quatro canais nacionais, sem ser apanágio da RTP1. Também cheguei a encontrar-me com ele no cinema. Quando aparecia de vez em quando nos cinemas da cidade, lá vinha a minha avó com a ideia de me levar a ver o filme com os meus primos. Era a dose total. Ainda nem sabia articular inglês coloquial mas já sabia cantarolar as canções sobre meninos a aprender a pauta musical e também a pauta da vida. Gosto deste filme não porque o conteúdo me preenche os critérios mas porque era o filme preferido da minha avó. Aliás, quando a senhora começa a cantar é a minha avó que me vem à memória apesar de ela nunca ter estado em Salzburgo. Mas eu sei que ela gostava de ter lá ido. :)

Um dia seremos

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Alguém de quem eu gosto muito dizia que a beleza física não era mais do que uma caveira bem forrada. O conceito da procura do belo estende-se a tudo desde a forma física à arte, aos valores intrínsecos ao ser humano e a uma catrefada de outras coisas mais. Mas há sempre um tempo em que se dá uma nivelação na (boa) forma humana, pelo menos a olho nu. Um dia seremos todos iguais e desnudos daquilo que já fomos uma vez.

Programa Manhattan

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Programa Manhattan? Não, não é nenhuma excursão pelas avenidas calcorreadas pela Carrie Bradshaw e sus muchachas ávidas de compras haute-couture. É o nome do programa nuclear, altamente secreto dirigido pelo cientista Robert Oppenheimer durante a Segunda Guerra Mundial, com o objetivo de produzir a primeira bomba atómica. Como resultado deste programa tão jeitoso, Los Alamos National Laboratory, no Novo México teve direito a um grande espetáculo pirotécnico onde se formou uma torre de 30 metros de altura seguida de uma cratera de 400 metros de diâmetro. Uau! E como os êxitos de bilheteira são sempre para se repetirem ad nausium, nas semanas seguintes já havia duas sequelas na forja e em 3D: As bombas "Little Boy" e "Fat Man" que foram lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, em 6 e 9 de agosto de 1945 respetivamente. Com tanta falta de assunto para se fazerem filminhos blockbuster originais para o verão, por que carga de água os estúdios de Hollywood ainda não invest...

Coração

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Qual é a forma do coração? Pode ser anguloso e curvo a dobrar na parte de cima, preenchido de cor-de-rosa, nos postais de 14 de fevereiro, ou vermelho, viscoso e pulsante, sob a lâmina do bisturi numa maca de cirurgia, mas sobretudo penso que ele pode ter a forma que cada um de nós quiser que ele tenha. É um gajo importante o sr.coração! Tem o apanágio da responsabilidade da vida e tem também o fardo de representar o grafismo doce do amor romântico. Corações perfeitos, corações partidos, corações imprimidos, corações tatuados e mais uma catadupa de outros tantos corações para todas as ocasiões. Em textos e conversas coloquiais, o coração costuma andar metido no meio das palavras que dizemos: Gosto de ti, coração! Tu não tens coração! É de partir o coração! Estás no meu coração! Olhos que não veem, coração que não sente! Fui embora mas deixei lá o meu coração! Este senhor é tão importante que até tem filmes com o seu nome no título: Música no Coração? Ok,este é o mais famoso e pelo me...

Silêncio

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O silêncio que antecede o primeiro beijo é das coisas mais extraordinárias que alguém pode sentir. Há quem trema mas faça pulso firme, há quem se esqueça como construir frases e de dizer as palavras adequadas, e por isso aguarda a iniciativa do outro, e há aqueles que ganham o momento: quebram o silêncio e soltam o beijo. Uma relação de muitos anos devia ter um momento assim todos os dias.

Primeira viagem

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Sempre achei que o amor e o sexo, na flor da inexperiência, são como uma primeira viagem na montanha russa. Ao princípio têm-se medo e só a ideia traz ansiedade e nervosismo. Depois vem a fase da decisão e, com ela, vem a escolha da pessoa que nos vai acompanhar na viagem. E finalmente, quando se concretiza, todo o medo que tínhamos se transforma em diversão.

Desesperadamente procurando férias

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Homem, 37 anos, simpático, procura férias para compromisso sério. Promete tratá-las com todo o respeito e pretende gozá-las, no bom sentido, da melhor maneira. Planeiam-se atividades lúdicas, momentos de lazer puro e outros tantos que são surpresa. As férias interessadas no cavalheiro que se arrisquem a responder até ao final do mês. Agosto será tempo de celebração. Marca-se encontro dia 31 julho, 18h30, rua do ócio no jardim do estio.

Lady of Shallot

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Alfred Lord Tennyson apresentou-me num poema a Lady de Shallot. Sozinha na torre do castelo de Shallot, uma ilha perto de Camelot, uma senhora elegante e triste está condenada a nunca poder espreitar o mundo lá fora, a não ser através do enorme espelho que tem na sala e que lhe mostra o reflexo que vem da janela. Enfeitiçada, sem saber porquê, ela aceita a sua condição e, para passar o tempo, vai fiando uma tapeçaria sem fim olhando de quando em vez para o espelho que lhe permite ver um pedaço da vida no exterior. Um dia igual a todos os outros, ela vê a imagem do cavaleiro Lancelot que passava a cavalo no outro lado do rio. Tudo deixou de lhe fazer sentido. Levantou-se e parou de tecer o tapete de mil cores para espreitar pela primeira vez pela janela debruçada sobre o rio. O espelho quebrou-se e ela compreendeu que o sabor da morte, que lhe vinha como certa, era mais encantador do que a calma solitária que vivera uma vida inteira. Saiu para o jardim, deitou-se numa barca sobre um ...

Amor de cão

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Gosto de amor em todas as cores e feitios: platónico, romântico, amigo, familiar, artístico, idealista e sobretudo o desinteressado. O amor de um cão é um dos mais comoventes e despretensiosos que pode existir.

O vendedor de sonhos

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Se há coisa que eu gosto de fazer, é ler. Especialmente romances. A literatura técnica pode ser muito interessante e necessária, é com certeza, mas eu prefiro a ficção. Dickens, Somerset Maugham, Doyle e, na minha língua, José Luís Peixoto, são os autores com quem eu gosto de “ir à pesca” Com este grupo há sempre a garantia de uma boa pescaria. Eles lançam o isco nas primeiras páginas e eu não me importo mesmo nada de ser a carpa daquele mar de letras. Mordo o anzol e deixo-me sacudir à tona dos parágrafos que eles sabem ondular com grande mestria. Costumo encontrar-me com eles nas livrarias antigas. Alfarrabistas ou lojas de livros em segunda mão. Quase nunca nas grandes superfícies comerciais. Sabem-me melhor os livros usados que alguém já manuseou e sentiu. São coisas minhas! Prefiro as metáforas que já foram lidas e interpretadas por outros olhos, sobretudo se estiverem estampadas em papel amarelecido pelo tempo. Na minha cidade há uma loja que eu conheço desde sempre. Uma loja ...

Ser viajante

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Prefiro ser viajante do que ser turista. É mais interessante a filosofia da descoberta do que a filosofia do livro de bolso. O viajante é sempre livre e o turista, muitas vezes, só é livre no dia em que não tem atividades pré-programadas. E depois há sempre um motivo para a viagem. Os turistas têm sempre um destino certo enquanto que os viajantes têm apenas um objetivo: seguir com a viagem. E por falar em viagem, os viajantes fazem da Ásia, ou de outro lugar qualquer, uma viagem maravilhosa. Já os turistas preferem focar-se no destino final e em vez da viagem maravilhosa à Ásia, eles costumam fazer a viagem à "Ásia maravilhosa". É diferente, não é? Dizem que o dinheiro faz girar o mundo. E de facto sem dinheiro é difícil viajar muitos kilómetros com conforto. Estamos de acordo. Mas até neste ponto parece-me que os turistas quando viajam, fazem-no sempre com dinheiro para os seus souvenirs porque não arriscariam viajar se assim não fosse. É essa a sua principal preocupaç...

Gosto

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Gosto de gelados de limão especialmente se casar com hortelã. Gosto de rir. Mas gosto mais de rir em conjunto. Gosto de viajar. Gosto ainda mais se for de comboio. Gosto de ler. Gosto ainda mais de ler e escrever nas margens do livro. Gosto de comer maças de manhã. Gosto de café. Gosto de jantar fora. Gosto muito mais se houver velas e música jazzy enquanto janto. Gosto de cinema. Gosto de filmes de ficção científica quando estou macambúzio. E de filmes de época quando estou introspetivo Gosto de Alfred Hitchcock esteja eu como estiver. Gosto da família. Gosto de falar. Gosto de ideias e de debatê-las. Gosto quando se discorda mas se ouve o outro. Gosto de pessoas de bom fundo. Gosto de gostar.

Não gosto

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Não gosto de acordar muito cedo. Mas não gosto de acordar tarde de mais. Não gosto de chico espertismo. Não gosto de segundas-feira chuvosas. Não gosto de concertos ultra-lotados. Não gosto de dança moderna quando não a entendo e só vejo pessoas de rojo pelo chão. Não gosto de sinopses pseudo-intelectuais que só podem ser entendidas por quem as escreveu. Não gosto de cinismo. Não gosto de alpinistas profissionais quando escalam tudo menos montanhas. Não gosto de praias lotadas. Não gosto de não ter tempo. Nem tão pouco gosto de o perder. Não gosto de mal entendidos. Não gosto especialmente de televisão porque prefiro cinema. Não gosto de más notícias. Não gosto de mentiras maldosas. Não gosto de enredos de telenovela trazidos para a realidade. Não gosto de preconceitos. Não gosto de desonestidade. Especialmente a intelectual. Não gosto de estereótipos. Não gosto da perfeição. Não gosto de noites sem sonhos. Não gosto de não gostar. Prefiro um milhão de vezes mais quando gosto.

Crise

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Estou farto da crise. Da crise económica. Da crise dos valores.. Da crise que existe. E até da crise que se inventa. Já não tenho pachorra para dispensar a esta senhora que está em digressão por todo o mundo. Até a minha pachorra está em crise. Fiquei a saber que a Espanha rifou o salero, a Irlanda penhorou a música de qualidade, Portugal leiloou o galo de Barcelos, porque ainda não pode vender a Mariza, e até a Grécia não tarda vai transformar a acrópole de Atenas num hotel de charme. Quem é que virá a seguir? Vendam a maior parte da Europa e transformem-na num parque temático ao jeito da Disneyland. Para rato Mickey, Pateta e irmãos Metralha temos uns quantos voluntários na Assembleia da República Portuguesa. Que crise!

Sabor da semana

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Uma pequena maldade não deixa de ser isso mesmo, uma maldade. Fazer intrigas sobre a vida de quem nos rodeia é uma forma triste de engrandecer quem alastra o boato. É como alguém que quer, por momentos, ter alguma coisa da sua autoria que chame a atenção dos outros e que essa coisinha se torne em algo precioso. O ato de espalhar uma informação sobre a vida de uma pessoa dá, por poucos minutos, a sensação de um poder delicioso. É como possuir um objeto valiosíssimo que estamos dispostos a partilhar com quem o quiser receber das nossas mãos. O pior é que essa pequena maldade, capaz de nos tornar mais importantes por breves instantes, tem também o poder de provocar lesões emocionais. Criar desconfianças. Tecer armadilhas e tensões nos outros que foram escolhidos para ser o "sabor da semana". Não existe sanção no Código Penal para a "pequena difamação" muito embora, inocente ou absurda, o boato alastre e queime sem indeminizações que possam reparar aquilo que existia...

Fragrâncias

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Mesmo que hoje os meus avós só vivam nas recordações que guardo no bolso, e no coração também, não deve haver um único dia que seja em que eu não tenha pensado neles. Recordo-lhes as palavras de cuidado, o olhar meigo e sobretudo o timbre calmo que ouvi tantas vezes nas histórias que me contavam. Gostava que as memórias fossem como pequenos frascos de perfume numa prateleira especial. Cada um com a sua fragrância à espera de ser revivida sempre que apetecesse. E se assim fosse, o perfume dos meus avós seria o mais sublime da minha coleção.

O provérbio

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Sempre achei piada aos provérbios. Podem até ser um cliché, delicioso, mas são muito divertidos. Há um provérbio chinês que eu gosto especialmente e que diz mais ou menos assim: Há uma linha vermelha, mas invisível, que liga aqueles que estão destinados a pertencerem-se. Não importa o tempo que passe, o espaço que afaste ou as circunstâncias que estejam contra, porque esta linha vermelha, mas invisível, que pode até emaranhar-se e dar muitos nós, nunca será quebrada. Nota explicativa: A linha é invisível aos olhos de quem não está destinado a pertencer e torna-se vermelho sangue quando os proprietários tomam consciência do seu destino. Chinesices!

Hipocrisia

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Hoje apetece-me dizer qualquer coisa sobre a hipocrisia. Sobretudo aquela, umas das piores, que faz com que alguém tenha tanto medo de ser como é, que prefira viver sempre de maquilhagem posta, dia e noite, só para se sentir integrado. Já passei a fase de ter piedade por quem opta pela clausura de si. A única oportunidade que alguém tem para estar bem consigo, e com os outros, é ser aquilo que realmente é, sem receio. Há quem tenha pavor da reação da família, há quem tenha medo de ser apontado, há quem tenha pesadelos com a rejeição daqueles que ama, e há outros que até emigram para serem como são longe dos olhos daqueles que os conheceram desde sempre. Tudo errado. O preconceito existe mas combate-se com exemplos positivos. Vencem-se muitas batalhas com a inteligência, com a oratória e com atitudes seguras. Quando alguém é importante no nosso plano emocional, social ou familiar, não vai importar nada os pormenores da vida íntima dessa pessoa. O pior é que na homossexualidade, e nou...