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Quando cheira a Natal

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Quando o cheiro a Natal começa a dançar pl'o ar, lá vem o musical mais natalício do mundo: "The Sound of Music". Lembro-me de o ver anunciado na RTP quando eu era pirralho e, mesmo depois de crescido, ao longo dos anos sempre na mesma quadra, lá vinha ele, por vezes a saltitar pelos quatro canais nacionais, sem ser apanágio da RTP1. Também cheguei a encontrar-me com ele no cinema. Quando aparecia de vez em quando nos cinemas da cidade, lá vinha a minha avó com a ideia de me levar a ver o filme com os meus primos. Era a dose total. Ainda nem sabia articular inglês coloquial mas já sabia cantarolar as canções sobre meninos a aprender a pauta musical e também a pauta da vida. Gosto deste filme não porque o conteúdo me preenche os critérios mas porque era o filme preferido da minha avó. Aliás, quando a senhora começa a cantar é a minha avó que me vem à memória apesar de ela nunca ter estado em Salzburgo. Mas eu sei que ela gostava de ter lá ido. :)

O vendedor de sonhos

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Se há coisa que eu gosto de fazer, é ler. Especialmente romances. A literatura técnica pode ser muito interessante e necessária, é com certeza, mas eu prefiro a ficção. Dickens, Somerset Maugham, Doyle e, na minha língua, José Luís Peixoto, são os autores com quem eu gosto de “ir à pesca” Com este grupo há sempre a garantia de uma boa pescaria. Eles lançam o isco nas primeiras páginas e eu não me importo mesmo nada de ser a carpa daquele mar de letras. Mordo o anzol e deixo-me sacudir à tona dos parágrafos que eles sabem ondular com grande mestria. Costumo encontrar-me com eles nas livrarias antigas. Alfarrabistas ou lojas de livros em segunda mão. Quase nunca nas grandes superfícies comerciais. Sabem-me melhor os livros usados que alguém já manuseou e sentiu. São coisas minhas! Prefiro as metáforas que já foram lidas e interpretadas por outros olhos, sobretudo se estiverem estampadas em papel amarelecido pelo tempo. Na minha cidade há uma loja que eu conheço desde sempre. Uma loja ...

Fragrâncias

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Mesmo que hoje os meus avós só vivam nas recordações que guardo no bolso, e no coração também, não deve haver um único dia que seja em que eu não tenha pensado neles. Recordo-lhes as palavras de cuidado, o olhar meigo e sobretudo o timbre calmo que ouvi tantas vezes nas histórias que me contavam. Gostava que as memórias fossem como pequenos frascos de perfume numa prateleira especial. Cada um com a sua fragrância à espera de ser revivida sempre que apetecesse. E se assim fosse, o perfume dos meus avós seria o mais sublime da minha coleção.

Cinderela

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A Marta Cabral era a minha amiga dos mundos inventados que só os miúdos podem entender. Aprendi a dar os primeiros passos com ela e quando caiamos, ajudavamo-nos um ao outro a levantar. Nas palavras ela era mais rápida do que eu. Quando ela já era um papagaio, ainda estava eu a aprender a pronunciar a letra R que tanto custava. :) Depois veio o cinema aos domingos, sempre às 11 horas, para ver a Branca de Neve, o Peter Pan e o Dumbo. Uma cadeira chegava para os dois porque assim já não se levantava pelo pouco peso que tinhamos quando estávamos cada um na sua. Uma das coisas que gostávamos mais de fazer era ouvir discos de histórias numa aparelhagem lindíssima, em madeira lacada, que tinha um rádio incorporado. Muitas vezes tínhamos medo dos dragões ou das bruxas que gritavam na história, e por isso escondiamo-nos debaixo da mesa até que se calassem. Cheguei a coleccionar um tesouro com 1000 quinquilharias que eu achava aqui e acolá e ofereci-lhe para que ela guardasse. E ela guardou...

Carta ao Pai Natal

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E não é que escrevi muitas cartas ao Pai Natal? A minha avó era a minha carteira preferida. Eu entregava-lhe a carta, com um ar muito solene, e ela garantia-me que lá na Lapónia, o Sr. das barbas brancas ia ter tempo de a ler e ponderar a minha lista de pedidos. Quando descobri o faz de conta sobre trenós puxados por renas e presentes para meninos bem comportados, quis logo saber onde andavam afinal as minhas cartas... A minha avó tinha todas as cartitas guardadas dentro de uma caixa de folha pintada com ramagens. Guardava-as como se fossem cartas de amor.