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O teu perfume

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No teu perfume eu encontro motivos para te fazer viver para sempre. Na minha memória, bem entendido. O teu cheiro quando vinhas para casa, molhada da chuva, com o cesto de vime cheio de legumes a emoldurar o peixe que tu escolhias sempre fresco. Ou o aroma dos teus beijos na minha face, quando me convencias a ir para a escola, quanto tudo aquilo que eu mais queria era continuar a estar contigo. Sem desenhos parvos e colagens absurdas que eu fazia com os outros miúdos na sala de aulas. Contigo, as horas eram festas e as tardes eram carnavais de histórias que tu me contavas, para me convencer a dar mais uma garfada. Não eras a minha mãe mas talvez fosses personagem de um patamar superior. De um livro de contos. Ou uma faixa de um disco, já muito riscado, que eu ouvia vezes e vezes sem conta contigo ao pé de mim. Tudo o que tenho de ti, agora, são fotografias com sorrisos teus e o teu perfume, que por vezes muda consoante a memória que tu deixaste. Como podes tu já não existir, se eu ai...

Quando cheira a Natal

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Quando o cheiro a Natal começa a dançar pl'o ar, lá vem o musical mais natalício do mundo: "The Sound of Music". Lembro-me de o ver anunciado na RTP quando eu era pirralho e, mesmo depois de crescido, ao longo dos anos sempre na mesma quadra, lá vinha ele, por vezes a saltitar pelos quatro canais nacionais, sem ser apanágio da RTP1. Também cheguei a encontrar-me com ele no cinema. Quando aparecia de vez em quando nos cinemas da cidade, lá vinha a minha avó com a ideia de me levar a ver o filme com os meus primos. Era a dose total. Ainda nem sabia articular inglês coloquial mas já sabia cantarolar as canções sobre meninos a aprender a pauta musical e também a pauta da vida. Gosto deste filme não porque o conteúdo me preenche os critérios mas porque era o filme preferido da minha avó. Aliás, quando a senhora começa a cantar é a minha avó que me vem à memória apesar de ela nunca ter estado em Salzburgo. Mas eu sei que ela gostava de ter lá ido. :)

Fragrâncias

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Mesmo que hoje os meus avós só vivam nas recordações que guardo no bolso, e no coração também, não deve haver um único dia que seja em que eu não tenha pensado neles. Recordo-lhes as palavras de cuidado, o olhar meigo e sobretudo o timbre calmo que ouvi tantas vezes nas histórias que me contavam. Gostava que as memórias fossem como pequenos frascos de perfume numa prateleira especial. Cada um com a sua fragrância à espera de ser revivida sempre que apetecesse. E se assim fosse, o perfume dos meus avós seria o mais sublime da minha coleção.

Carta ao Pai Natal

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E não é que escrevi muitas cartas ao Pai Natal? A minha avó era a minha carteira preferida. Eu entregava-lhe a carta, com um ar muito solene, e ela garantia-me que lá na Lapónia, o Sr. das barbas brancas ia ter tempo de a ler e ponderar a minha lista de pedidos. Quando descobri o faz de conta sobre trenós puxados por renas e presentes para meninos bem comportados, quis logo saber onde andavam afinal as minhas cartas... A minha avó tinha todas as cartitas guardadas dentro de uma caixa de folha pintada com ramagens. Guardava-as como se fossem cartas de amor.