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Olhos vendados

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Mesmo de olhos vendados , meu amor.. Vejo-te nas sombras dos beijos que ficaram por dar Imagino-te no chilrear dos lábios, Como se fossemos pássaros de asa ardente Mesmo de olhos vendados, meu amor… Oiço-te as emoções marulhadas no teu (nosso) mar Cheiro-te os anseios nos teus silêncios sábios Caminho-te com mãos de veludo em luar de mudez estridente Mesmo de olhos vendados , meu amor.. Colho-te afectos nos canteiros de flor encarnada Pressinto-te em espasmos de sorriso ardente Porque tu morres-me no olhar para me nasceres na mente Mesmo de olhos vendados, meu amor.. Vou amar-te numa escuridão sem madrugada Calar a minha aura com a tua presença de estrela intermitente Vontade de ser galáxia para que te embales em noite estrelada Mesmo de olhos vendados, meu amor… Eu encontro-te no breu dentro de mim e sussuro-te: É para sempre.

Lua feita de mim

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Dei-te uma lua feita de mim que este corpo meu teceu com beijos de cetim que eu encontrei num olhar teu. Uma lua sem luar que me embala no adormecer, feita de beijos a brilhar, como estrelas a florescer. Dei-te uma lua feita de mim sempre a girar numa valsa de jasmim vestida com a noite a perfumar. A lua que te dei ainda a tens? Pedaços teus que eu amei, numa noite vazia tao escura e tão fria. Assim te dei eu a lua, meu amor. Antes de ti, ela não existia.

O Cacilheiro

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Lá vai no Mar da Palha o Cacilheiro, comboio de Lisboa sobre a água: Cacilhas e Seixal Montijo mais Barreiro. pouco Tejo pouco Tejo e muita mágoa. Na ponte passam carros e turistas iguais a todos que há no mundo inteiro, mas embora mais caras a ponte não tem vistas como as dos peitoris do Cacilheiro. Leva namorados marujos soldados e trabalhadores e parte dum cais que cheira a jornais morangos e flores. Regressa contente levou muita gente e nunca se cansa. Parece um barquinho lançado no Tejo por uma criança. Num carreirinho aberto pela espuma lá vai o Cacilheiro Tejo à solta, e as ruas de Lisboa sem ter pressa nenhuma tiraram um bilhete de ida e volta. Alfama Madragoa Bairro Alto, tu cá tu lá num barco de brincar metade de Lisboa à espera no asfalto e já meia saudade a navegar. Se um dia o Cacilheiro for embora fica mais triste o coração da água e o povo de Lisboa dirá como quem chora, pouco Tejo pouco Tejo e muita mágoa. Ary dos Santos