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Morangos da vida

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Aos 37 anos é muito provável que eu já tenha caminhado metade do percurso que tive, e tenho, pela frente. Andei muitas vezes às escuras, a tropeçar nas pedras do chão que não soube ver a tempo, mas outras vezes, pelo contrário, passeei alegremente e fui conversando com os amigos que fiz pelo caminho. Com tombos ou passeatas de mão dada, valeu tudo a pena. Só há uma coisa que é muito diferente agora: as minhas prioridades e a gestão do meu tempo. É como se o meu cesto de morangos esteja agora meio cheio, ou meio vazio, e eu já não tenha a mesma disponibilidade para os ir deixando cair sem me importar com isso, ou para os dar generosamente sem olhar a quem, ou ainda para simplesmente os deitar fora, como fazia antes, ao mínimo defeito que detetasse na polpa vermelha. Já não faço nada disso. Agora os meus morangos, o meu tempo, são geridos com austeridade. Já não acato conversas que não me levam a lado nenhum. Já não deixo qualquer pessoa entrar na minha vida para que saia à mínima fri...

Há dias

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Há dias em que não sei a dimensão de mim. Dias em que me deixo perder no labirinto da minha própria essência e nem sequer sei onde começo e acabo. Há dias assim. Dias não. Dias que não são perfeitos mas que por algum motivo teimam em acontecer. O que fazer com eles? O tempo neste mundo tem muitos destes dias. O mais fantástico num dia assim é como ele pode representar a perfeição num outro universo humano. Aquilo que não me apraz, delicia o senhor que se segue. Um mundo heterogéneo de emoções interpretáveis de mil e uma maneiras. Certamente um dia não são dias. E um dia nefasto pode ser um dia delicioso num outro universo paralelo. Talvez esse seja o grande apanágio dos humanos: a multiplicidade de interpretações que um dia pode conter. Amanhã lá vem outro...dia!

Às vezes

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Às vezes queria que a vida fosse como um filme a preto e branco. De planos demorados. Lentos de pormenor. Outras vezes, eu queria que a existência fosse um filme colorido. Garrido de sentimento. Estilizado de emoções. De vez em quando, poderia ser também um filme de autor. Mais rápido e de contornos misteriosos. Se Deus, ou quem manda, fosse um realizador galardoado, cada um de nós viveria a sua longa-metragem à medida do talento. Porque se a vida fosse um filme, de todos os géneros, blockbuster ou erudito, os finais seriam, por tendência, sempre felizes.

Deserto

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A vida é um deserto árido que cabe a nós povoar e preencher ao longo do tempo. Antes de conseguir criar um oásis, consegui primeiro plantar um pequeno arbusto e tentei fazê-lo crescer o melhor que soube. O arbusto teve alturas em que cresceu verdejante, outras ainda em que secou desmesuradamente. Aprendi então que a vida é sobretudo uma questão de tempo. Um universo de estações com consequentes metamorfoses. O importante é a adaptabilidade à circunstância, a evolução e a aprendizagem. Acredito tremendamente no acaso. Creio na perfeição da circunstância e na possibilidade de a capitalizarmos correta ou incorrectamente. Ser e Estar é aquilo que nos define porque determina aquilo que somos num mundo que mudou, muda e sempre mudará. O sumo da vida é felicidade expressa naquilo que somos e fazemos com prazer. Ainda não tenho um oásis mas tenho o arbusto que não vou deixar morrer.