Dói
Dói muito uma dor de dentes. Dói também uma infecção no ouvido. Dói ainda uma luxação nos músculos. Uma agressão, um sacudir violento, um pontapé, um murro bem assente, doem tanto. Mas mesmo doendo muito, doem mais do que a ausência? A (não)presença de um ser querido que já não está. Um pai que vai embora e não volta. Um irmão ou irmã que não está perto. Um amigo que perdemos no tempo e não encontramos mais. Uma cidade que conhecemos e à qual não voltámos. Um prato favorito que deixou de ser confeccionado. Um sol radioso que se perdeu nos dias de chuva. Uma vida que passou e não a agarrámos. As histórias da avó que não ficaram escritas. As palavras perfeitas que dissemos e não escrevemos. Doem muito mais todas estas coisas. A maior das dores é a saudade do amor. Uma saudade feita dos beijos dados, dos cheiros que se registaram e que o tempo não apaga. Aquela saudade de uma voz que conhecemos tão bem o timbre mas que não a ouvimos mais, porque não se materializa. Saudade de uma ausênc...