Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta saudade

As Palavras

Imagem
Sei dizer-te as palavras Quando elas saem assim Sem ordem pensada Sei dizer-te as palavras Palavras de amor Meias-verdades, ou saudades com dor Nascidas no dorso da madrugada As palavras são rótulos de mim São receitas secretas Que tu encontras num avental de cetim As palavras são pedaços de cor Como traje de Columbina sem Arlequim Quando acordo no teu colo Sou flor silvestre em pequeno vaso Que sonha com o teu jardim

O teu perfume

Imagem
No teu perfume eu encontro motivos para te fazer viver para sempre. Na minha memória, bem entendido. O teu cheiro quando vinhas para casa, molhada da chuva, com o cesto de vime cheio de legumes a emoldurar o peixe que tu escolhias sempre fresco. Ou o aroma dos teus beijos na minha face, quando me convencias a ir para a escola, quanto tudo aquilo que eu mais queria era continuar a estar contigo. Sem desenhos parvos e colagens absurdas que eu fazia com os outros miúdos na sala de aulas. Contigo, as horas eram festas e as tardes eram carnavais de histórias que tu me contavas, para me convencer a dar mais uma garfada. Não eras a minha mãe mas talvez fosses personagem de um patamar superior. De um livro de contos. Ou uma faixa de um disco, já muito riscado, que eu ouvia vezes e vezes sem conta contigo ao pé de mim. Tudo o que tenho de ti, agora, são fotografias com sorrisos teus e o teu perfume, que por vezes muda consoante a memória que tu deixaste. Como podes tu já não existir, se eu ai...

Palavras por dizer

Imagem
Uma coisa tão simples e natural como a morte, pode ser ao mesmo tempo uma das coisas mais complexas e difíceis de entender. Sobretudo quando se sente a ausência de quem partiu em toda a sua força. Aquilo que me dói mais na morte não é a ideia do fim ou do deixar de existir. Dói-me muito mais o tempo que se ganha, com a ausência, para se poder preparar as palavras certas a trocar com quem já não as poderá receber. Com esse tempo ganho, imaginam-se os momentos em que se disse tudo aquilo que havia por dizer. As frases saem completas. Ricas. Vírgula por vírgula. Ponto por ponto. Tudo isto porque a ausência total de alguém importante faz-nos perorar sobre aquilo que devia ter sido dito e não foi. Está a fazer quatro anos que o meu pai morreu. Parecem-me décadas, estes quatro anos, porque o tempo tornou-se lento de propósito para que eu pudesse avaliar a importância que ele tinha na minha vida. As palavras que eu não disse ao meu pai, vou guardá-las para mim para lhes dar corpo com as mi...

Fragrâncias

Imagem
Mesmo que hoje os meus avós só vivam nas recordações que guardo no bolso, e no coração também, não deve haver um único dia que seja em que eu não tenha pensado neles. Recordo-lhes as palavras de cuidado, o olhar meigo e sobretudo o timbre calmo que ouvi tantas vezes nas histórias que me contavam. Gostava que as memórias fossem como pequenos frascos de perfume numa prateleira especial. Cada um com a sua fragrância à espera de ser revivida sempre que apetecesse. E se assim fosse, o perfume dos meus avós seria o mais sublime da minha coleção.

Carta ao Pai Natal

Imagem
E não é que escrevi muitas cartas ao Pai Natal? A minha avó era a minha carteira preferida. Eu entregava-lhe a carta, com um ar muito solene, e ela garantia-me que lá na Lapónia, o Sr. das barbas brancas ia ter tempo de a ler e ponderar a minha lista de pedidos. Quando descobri o faz de conta sobre trenós puxados por renas e presentes para meninos bem comportados, quis logo saber onde andavam afinal as minhas cartas... A minha avó tinha todas as cartitas guardadas dentro de uma caixa de folha pintada com ramagens. Guardava-as como se fossem cartas de amor.

Dói

Imagem
Dói muito uma dor de dentes. Dói também uma infecção no ouvido. Dói ainda uma luxação nos músculos. Uma agressão, um sacudir violento, um pontapé, um murro bem assente, doem tanto. Mas mesmo doendo muito, doem mais do que a ausência? A (não)presença de um ser querido que já não está. Um pai que vai embora e não volta. Um irmão ou irmã que não está perto. Um amigo que perdemos no tempo e não encontramos mais. Uma cidade que conhecemos e à qual não voltámos. Um prato favorito que deixou de ser confeccionado. Um sol radioso que se perdeu nos dias de chuva. Uma vida que passou e não a agarrámos. As histórias da avó que não ficaram escritas. As palavras perfeitas que dissemos e não escrevemos. Doem muito mais todas estas coisas. A maior das dores é a saudade do amor. Uma saudade feita dos beijos dados, dos cheiros que se registaram e que o tempo não apaga. Aquela saudade de uma voz que conhecemos tão bem o timbre mas que não a ouvimos mais, porque não se materializa. Saudade de uma ausênc...

Coisas que eu (pres)sinto

Imagem
Não pensei que a Lua tivesse oceanos de silêncio, Quando há terramotos dentro mim, só porque a observo ao teu lado. Ignorei haver afectos ou serenidades num olhar distante, que ainda não cruzei, Desenhado em céus onde eu não chovi nem trovejei. Calores e nuances de encontros imperfeitos, ensinaram-me cores que eu não soube conjugar. Vou deslizar nas pestanas intermináveis da volúpia, Sorver as letras do nome que não se soletra sem sílabas de veludo, Rio sem foz, voz sem timbre, dor sem aperto. Estamos a crescer, a sentir, a tocar, a misturar. Tremendamente puro e uno. Como um.