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Gosto

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Gosto de gelados de limão especialmente se casar com hortelã. Gosto de rir. Mas gosto mais de rir em conjunto. Gosto de viajar. Gosto ainda mais se for de comboio. Gosto de ler. Gosto ainda mais de ler e escrever nas margens do livro. Gosto de comer maças de manhã. Gosto de café. Gosto de jantar fora. Gosto muito mais se houver velas e música jazzy enquanto janto. Gosto de cinema. Gosto de filmes de ficção científica quando estou macambúzio. E de filmes de época quando estou introspetivo Gosto de Alfred Hitchcock esteja eu como estiver. Gosto da família. Gosto de falar. Gosto de ideias e de debatê-las. Gosto quando se discorda mas se ouve o outro. Gosto de pessoas de bom fundo. Gosto de gostar.

Não gosto

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Não gosto de acordar muito cedo. Mas não gosto de acordar tarde de mais. Não gosto de chico espertismo. Não gosto de segundas-feira chuvosas. Não gosto de concertos ultra-lotados. Não gosto de dança moderna quando não a entendo e só vejo pessoas de rojo pelo chão. Não gosto de sinopses pseudo-intelectuais que só podem ser entendidas por quem as escreveu. Não gosto de cinismo. Não gosto de alpinistas profissionais quando escalam tudo menos montanhas. Não gosto de praias lotadas. Não gosto de não ter tempo. Nem tão pouco gosto de o perder. Não gosto de mal entendidos. Não gosto especialmente de televisão porque prefiro cinema. Não gosto de más notícias. Não gosto de mentiras maldosas. Não gosto de enredos de telenovela trazidos para a realidade. Não gosto de preconceitos. Não gosto de desonestidade. Especialmente a intelectual. Não gosto de estereótipos. Não gosto da perfeição. Não gosto de noites sem sonhos. Não gosto de não gostar. Prefiro um milhão de vezes mais quando gosto.

Crise

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Estou farto da crise. Da crise económica. Da crise dos valores.. Da crise que existe. E até da crise que se inventa. Já não tenho pachorra para dispensar a esta senhora que está em digressão por todo o mundo. Até a minha pachorra está em crise. Fiquei a saber que a Espanha rifou o salero, a Irlanda penhorou a música de qualidade, Portugal leiloou o galo de Barcelos, porque ainda não pode vender a Mariza, e até a Grécia não tarda vai transformar a acrópole de Atenas num hotel de charme. Quem é que virá a seguir? Vendam a maior parte da Europa e transformem-na num parque temático ao jeito da Disneyland. Para rato Mickey, Pateta e irmãos Metralha temos uns quantos voluntários na Assembleia da República Portuguesa. Que crise!

Sabor da semana

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Uma pequena maldade não deixa de ser isso mesmo, uma maldade. Fazer intrigas sobre a vida de quem nos rodeia é uma forma triste de engrandecer quem alastra o boato. É como alguém que quer, por momentos, ter alguma coisa da sua autoria que chame a atenção dos outros e que essa coisinha se torne em algo precioso. O ato de espalhar uma informação sobre a vida de uma pessoa dá, por poucos minutos, a sensação de um poder delicioso. É como possuir um objeto valiosíssimo que estamos dispostos a partilhar com quem o quiser receber das nossas mãos. O pior é que essa pequena maldade, capaz de nos tornar mais importantes por breves instantes, tem também o poder de provocar lesões emocionais. Criar desconfianças. Tecer armadilhas e tensões nos outros que foram escolhidos para ser o "sabor da semana". Não existe sanção no Código Penal para a "pequena difamação" muito embora, inocente ou absurda, o boato alastre e queime sem indeminizações que possam reparar aquilo que existia...

Fragrâncias

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Mesmo que hoje os meus avós só vivam nas recordações que guardo no bolso, e no coração também, não deve haver um único dia que seja em que eu não tenha pensado neles. Recordo-lhes as palavras de cuidado, o olhar meigo e sobretudo o timbre calmo que ouvi tantas vezes nas histórias que me contavam. Gostava que as memórias fossem como pequenos frascos de perfume numa prateleira especial. Cada um com a sua fragrância à espera de ser revivida sempre que apetecesse. E se assim fosse, o perfume dos meus avós seria o mais sublime da minha coleção.

O provérbio

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Sempre achei piada aos provérbios. Podem até ser um cliché, delicioso, mas são muito divertidos. Há um provérbio chinês que eu gosto especialmente e que diz mais ou menos assim: Há uma linha vermelha, mas invisível, que liga aqueles que estão destinados a pertencerem-se. Não importa o tempo que passe, o espaço que afaste ou as circunstâncias que estejam contra, porque esta linha vermelha, mas invisível, que pode até emaranhar-se e dar muitos nós, nunca será quebrada. Nota explicativa: A linha é invisível aos olhos de quem não está destinado a pertencer e torna-se vermelho sangue quando os proprietários tomam consciência do seu destino. Chinesices!

Hipocrisia

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Hoje apetece-me dizer qualquer coisa sobre a hipocrisia. Sobretudo aquela, umas das piores, que faz com que alguém tenha tanto medo de ser como é, que prefira viver sempre de maquilhagem posta, dia e noite, só para se sentir integrado. Já passei a fase de ter piedade por quem opta pela clausura de si. A única oportunidade que alguém tem para estar bem consigo, e com os outros, é ser aquilo que realmente é, sem receio. Há quem tenha pavor da reação da família, há quem tenha medo de ser apontado, há quem tenha pesadelos com a rejeição daqueles que ama, e há outros que até emigram para serem como são longe dos olhos daqueles que os conheceram desde sempre. Tudo errado. O preconceito existe mas combate-se com exemplos positivos. Vencem-se muitas batalhas com a inteligência, com a oratória e com atitudes seguras. Quando alguém é importante no nosso plano emocional, social ou familiar, não vai importar nada os pormenores da vida íntima dessa pessoa. O pior é que na homossexualidade, e nou...

Quando eu...

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Quando eu tinha vinte anos gostava de terminar o dia com os amigos e, de preferência, com uma festa bem rija. Aos 37 anos mudou muita coisa. Hoje prefiro acabar o dia, depois do trabalho, à pesca do sol, com um café, um cigarrito e um livro. Sabe bem namorar-me em cada momento que eu estou comigo. Não me parece que seja velhice (risos). Parece-me mais aquela quietude, e uma paz especial, que é mais fácil de ser apanhada com o galopar do tempo.

Mudar

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Mudam-se as ideias, os conceitos e os paradigmas.Assim evoluem as artes e as ciências. O pior é quando a mudança ultrapassa a fronteira da evolução saudável e se torna numa coisa disforme que nos faz estranhar o mundo tal como o conhecíamos.

Ondas

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Gosto de pensar que os sentimentos podem ser como ondas, e cada uma diferente da outra. As tonalidades da água, a sua temperatura que difere, e a altura máxima que atinge antes de se desfazer na praia, fazem daquela onda um exemplar único. Vamos surfar emoções?

Mais

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Mais. Mais. Mais e mais. Toda a gente quer mais. Metade quer mais porque diz que precisa. E outra metade quer mais porque foi treinada para somar e não gosta da divisão. Ora se a maioria até é má a matemática para quê querer ser perito na soma? O "mais" é gordo. Pesa que se farta. Há gente que ainda vai ficar marreca por querer carregar sempre mais e mais e mais... O "mais" tem de ser assertivo para que seja necessário. Se eu quero mais? Quero. Mas só o mais essencial.

Universidade

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Na faculdade aprendi muita coisa. Aprendi o que custa fazer frequências e a saber gerir o meu tempo. Aprendi que naquela altura, mesmo que por muitas vezes difícil, eu tinha uma disponibilidade grande e saborosa que hoje já não tenho. Mas o maior ensinamento de todos foi fazer amizades para a vida. Socrátes escreveu certa vez que para se conseguir a amizade de uma pessoa digna é preciso desenvolvermos em nós mesmos as qualidades que naquela admiramos. E é isso mesmo! Aprendi na faculdade a trocar ideias e a admirar comportamentos e posturas de tanta gente. Foram tantos os bocadinhos meus e dos outros que se trocaram que se fosse a dizer todos os nomes que eu recordo, nunca mais terminava o status do Facebook. Susana, café depois da aula de História Contemporânea e uma grand'a praia? :-)))

Património

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À vontade a beirar os 30 graus faz apetecer um mergulho a iniciar as hostilidades de veraneio. Mas um café e uma água Castelo compensam a indisponibilidade da praia numa quinta-feira de trabalho. O tempo português devia ser património mundial da meteorologia do mundo! :)

Justifica-te

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Detesto justificações. Cansam-me. Fazem-me perder as estribeiras. Nunca gostei. O que é uma justificação que se pede se não uma forma de subjugar o outro? Mas há quem diga que se devem sempre dar justificações. Justifica-se?

Cinderela

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A Marta Cabral era a minha amiga dos mundos inventados que só os miúdos podem entender. Aprendi a dar os primeiros passos com ela e quando caiamos, ajudavamo-nos um ao outro a levantar. Nas palavras ela era mais rápida do que eu. Quando ela já era um papagaio, ainda estava eu a aprender a pronunciar a letra R que tanto custava. :) Depois veio o cinema aos domingos, sempre às 11 horas, para ver a Branca de Neve, o Peter Pan e o Dumbo. Uma cadeira chegava para os dois porque assim já não se levantava pelo pouco peso que tinhamos quando estávamos cada um na sua. Uma das coisas que gostávamos mais de fazer era ouvir discos de histórias numa aparelhagem lindíssima, em madeira lacada, que tinha um rádio incorporado. Muitas vezes tínhamos medo dos dragões ou das bruxas que gritavam na história, e por isso escondiamo-nos debaixo da mesa até que se calassem. Cheguei a coleccionar um tesouro com 1000 quinquilharias que eu achava aqui e acolá e ofereci-lhe para que ela guardasse. E ela guardou...

Carta ao Pai Natal

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E não é que escrevi muitas cartas ao Pai Natal? A minha avó era a minha carteira preferida. Eu entregava-lhe a carta, com um ar muito solene, e ela garantia-me que lá na Lapónia, o Sr. das barbas brancas ia ter tempo de a ler e ponderar a minha lista de pedidos. Quando descobri o faz de conta sobre trenós puxados por renas e presentes para meninos bem comportados, quis logo saber onde andavam afinal as minhas cartas... A minha avó tinha todas as cartitas guardadas dentro de uma caixa de folha pintada com ramagens. Guardava-as como se fossem cartas de amor.

No, they don't

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Ontem fiz uma classic movie night e projectei na tela da sala (japonesa da janela) um western americano, que já tinha ouvido falar, mas nunca tinha visto: "Duel in the Sun" (1946). Gregory Peck, Joseph Cotten e Jennifer Jones. Sou viciado no cinema americano dos anos 40 e 50. Quem disse um dia que "they don't make them like this anymore", sabia aquilo que dizia e eu concordo plenamente. Mudam-se os tempos, mudam-se os gostos, mudam-se os estilos, muda-se tudo, com certeza. Mas ainda bem que há lançamentos em DVD/Blue Ray e os ciclos da cinemateca. :-))))

Licença para lembrar

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Hoje a vida é, em muitos aspectos, mais simples. Há a Internet e o Facebook a servirem de grandes portões que se abrem para o mundo. Desde a estrela de cinema, passando pelo jogador da 1a divisão, até ao Sr. António da mercearia, quase tudo e todos estão na Internet ou têm perfil no Facebook. Fácil, não é? :) Mas quando eu era miúdo e queria contactar alguém que habitasse o meu imaginário de adolescente, tinha de me esforçar imenso. Era preciso encontrar moradas. Ler revistas da especialidade. Escrever cartas. Pensar muito bem antes de escrevê-las. E aguardar pacientemente que respondessem. Das cartas que eu escrevi, no alto da minha inocência, duas figuras públicas responderam através dos seus agentes, eu creio: o realizador Steven Spielberg e a actriz Maryam D'Abo. Era emocionante receber uma carta dos Estados Unidos com uma nota de agradecimento e uma fotografia autografada. :-) A loura actriz do filme do James Bond, ou alguém por ela, tinha recebido a minha carta, agradeceu e...

Mães da Praça de Maio

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Segundo números oficiais, cerca de 18 mil pessoas desapareceram na Argentina durante a ditadura militar (1976-1983) mas os organismos de direitos humanos elevam esse número para 30 mil. Muitas crianças, filhas de casais considerados subversivos, desapareceram sem deixar rasto. Durante anos a fio, as mães dessas crianças marcharam todas as 5ª feiras à volta da pirâmide da Praça de Maio como protesto pelas atrocidades cometidas. Maria Guinot talvez tenha sido a única artista que ofereceu uma canção a estas mães.

Dói

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Dói muito uma dor de dentes. Dói também uma infecção no ouvido. Dói ainda uma luxação nos músculos. Uma agressão, um sacudir violento, um pontapé, um murro bem assente, doem tanto. Mas mesmo doendo muito, doem mais do que a ausência? A (não)presença de um ser querido que já não está. Um pai que vai embora e não volta. Um irmão ou irmã que não está perto. Um amigo que perdemos no tempo e não encontramos mais. Uma cidade que conhecemos e à qual não voltámos. Um prato favorito que deixou de ser confeccionado. Um sol radioso que se perdeu nos dias de chuva. Uma vida que passou e não a agarrámos. As histórias da avó que não ficaram escritas. As palavras perfeitas que dissemos e não escrevemos. Doem muito mais todas estas coisas. A maior das dores é a saudade do amor. Uma saudade feita dos beijos dados, dos cheiros que se registaram e que o tempo não apaga. Aquela saudade de uma voz que conhecemos tão bem o timbre mas que não a ouvimos mais, porque não se materializa. Saudade de uma ausênc...