Perguntem à Alice!
Ela coçou o joelho lustroso e apoiou o queixo nos braços. Os olhos bonitos pareciam perdidos num horizonte que só ela parecia conhecer. Era dificil quebrar aquele olhar castanho quando ela se encontrava acastelada naquele universo tão hermético. Lá em cima, o céu cinzento embalava umas poucas de nuvens escuras que ameaçavam começar a chover. Como se o único motivo que ainda as detinha de lacrimejar fosse a presença dela naquele jardim, qual deusa ou ninfa de um um dossel de algodão cinzento.
Não havia momento mais precioso no dia do que aquele em que ela podia finalmente estender-se na relva perto do canteiro de malmequeres. Fazia-o ritualmente todos os dias depois do almoço. Trazia sempre consigo um livro volumoso de contos de fadas, apesar de já ter passado a idade de acreditar em duendes e dragões, e debruçava-se sobre ele folheando-o com os dedos esguios. Muitas vezes detinha-se durante longos momentos a admirar as gravuras coloridas. Esboçava um sorriso e olhava para cima como se assim pudesse dar vida às imagens. Imaginava-as em movimento e muitas vezes incluia-se nelas. Alice era assim. Sempre perdida em universos paralelos , para ela muito mais emocionantes do que a normalidade no mundo dos humanos.
Uma brisa leve embalava-lhe os cabelos compridos e doirados. Os malmequeres baloiçavam em dança conivente com o vento e chegavam a tocar-lhe no rosto e nos cabelos. Ela sentia-se reconfortada pela brisa e pelos escassos raios de sol que conseguiam escapar ao bloco enegrecido das nuvens. Os olhos de Alice pesavam cada vez mais, à medida que terminava cada linha de texto do livro de contos. Os braços perfeitos escorregavam pela superfície do livro aberto até formarem um apoio ideal para a sua cabeçita pesada de tantos sonhos e fantasias.
Toc, toc, toc , ouviram-se de repente passos apressados. Alice ergueu-se e afastou os cabelos do rosto. Um coelho de fato de veludo vermelho passava junto a ela com um ar de garoto que acabara de perder mãe. O focinho branco de nariz cor de rosa apontava para um relógio dourado que acabara de tirar do bolso.
- Céus! Que atrasado estou! Onde estão o meu leque e luvas?

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