À mão
Quem é que ainda sabe escrever um caderno inteiro? Quem é que ainda sabe passar para o papel uma caligrafia só sua, sem a vestir com o prete a porter Times New Roman, tamanho 12, com a folga de 1,5 para as bainhas?
A haute couture da mensagem feita à mão está em desuso. Como estão os selos. E as cartas enviadas pelo correio também. Pergunto-me se até os bilhetes dobrados em quatro, a voarem numa sala de aula transformada em aeroporto temporário, estarão em crise. Devem estar moribundos. Os bilhetinhos de liceu agora são sofisticados: passaram a ter o poder de fazer vibrar o bolso do colega na primeira fila que, disfarçadamente, consulta o telefone e retribui na mesma moeda. E os contratos e as assinaturas? Já pouco se levanta a caneta para vincar com tinta o papel. Dizem que a assinatura moderna é digital e pode ser usada mil vezes. O nome fica embalsamado num ficheiro de imagem e assim ninguém se engana a assinar. Trigo limpo, farinha Amparo!
Até as cartas que se extraviavam porque o carteiro não conhecia bem a nossa zona, agora têm um nome pomposo: Vê na pasta do Spam que deve lá estar com certeza.
Dizem que as cartas de amor já não se usam. Pois não. Uma carta de amor só é uma carta de amor se for escrita com uma mão que treme de hesitação.

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