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A mostrar mensagens de agosto, 2012

É a lei

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    Há coisas do camandro! Escolhas mais-do-que-imperfeitas e que se podem traduzir nas coisas mais simples. A fila do supermercado que nos parece a mais rápida, dois minutos depois de lá estarmos carregados de compras, torna-se de repente na mais lenta da correnteza. Bonito! Dizem que esta coisa jeitosa tem um nome americano: Sod's Law ou mais conhecido ainda, Murphy's Law. Esta "lei" formulada em 1949 por E.A. Murphy Jr, engenheiro dos EUA, nasceu como uma brincadeira privada entre os cientistas atómicos dos Estados Unidos: "Se alguma coisa puder correr mal, vai correr mesmo mal!". Deve ser por isso que os EUA conseguiram fazer os três ensaios atómicos que se conhecem, e que correram mesmo muito mal. Só alguém com um sentido de humor ultra-negro conseguiria estar envolvido no projeto. Digo-o, sem ironia nenhuma...

Às vezes

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Às vezes queria que a vida fosse como um filme a preto e branco. De planos demorados. Lentos de pormenor. Outras vezes, eu queria que a existência fosse um filme colorido. Garrido de sentimento. Estilizado de emoções. De vez em quando, poderia ser também um filme de autor. Mais rápido e de contornos misteriosos. Se Deus, ou quem manda, fosse um realizador galardoado, cada um de nós viveria a sua longa-metragem à medida do talento. Porque se a vida fosse um filme, de todos os géneros, blockbuster ou erudito, os finais seriam, por tendência, sempre felizes.

Atriz mulher

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Há alguns dias atrás escrevi sobre esta senhora, figura de destaque da teledramaturgia brasileira. Olhando para a sua estatura pequenina, de olhar negro e ligeiramente estrábico, consegue-se sentir uma energia especial que destila no seu discurso simples mas articulado. Lucélia Santos é uma mulher muito interessante. Mais do que a eterna "Escrava Isaura", a quem deve o reconhecimento internacional em mais de 120 países, é sobretudo uma atriz de teatro e cinema. Foi a musa do dramaturgo Nelson Rodrigues porque transportou para o grande ecrã uma série de heroínas rodriguianas: "Engraçadinha", "Lara de Resende" ou "Álbum de Família". Nos anos 80 deu vida no cinema a "Luz del Fuego", uma figura polémica ligada ao naturismo em tempo de ditatura militar, naquele que seria, dizem, o filme preferido de Fidel de Castro. Aliás, graças a este trabalho, e à velhinha Isaura também, dizem que o próprio Fidel quis conhecer a Lucélia pessoalmente...

64

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Quando eu tiver 64 anos quero já ter feito o meu trabalho de casa. Da escola da vida, quero eu dizer. Quero ter sido eu sempre, sem nunca ter precisado de montar armadilhas a ninguém para conseguir mais depressa os meus objetivos. Quando eu tiver 64 anos quero que digam que eu fui um gajo porreiro. Que soube sempre ouvir. Que soube sempre ajudar um amigo quando ele precisou de mim. Quando eu tiver 64 anos quero que o mundo tenha uma consciência diferente daquela que tem hoje. Quero que ele seja um lugar onde a sustentabilidade, a eco-efiiciência e o bem estar comum sejam as palavras de ordem. Sem atropelos, sem capitalismos selvagens, sem selvas de pedra onde só os mais ferozes e os que rugem mais alto, é que sobrevivem. Até porque se eu estiver errado, nessa altura já estou velho de mais para lutar contra os leões. Quando eu tiver 64 anos quero que ainda haja livros a conviverem nas prateleiras com os mil gadgets (des)necessários que vão ser inventados até essa altura. Pode ...

A tua geometria

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Quando penso porque te amo, encontro uma resposta original em cada perspectiva do meu pensamento. Imagino-te a sorrir, ou de lado, ou ainda a fazer o pino contra aquela parede que tu pintas insistentemente de todas as cores que existem. São muito diferentes as perspectivas de ti. São, sim senhor! Mas são tão iguais as emoções que tu me trazes! Essas, as emoções, são fortes e coloridas. Fortes como aquele abraço que tu me dás quando estamos juntos no baloiço da noite, e são coloridas como os nossos olhares cruzados nos instantes que construímos.   Não entendo quase nada de geometria descritiva. Não percebo os planos geométricos nem tampouco as perspectivas que tu dominas. Mas sei de cor cada pedaço de ti; cada posição que tomas; cada esboçar de sorriso. Não sei se sentes o mesmo que eu, e para te falar a verdade, nem é coisa que me faça perder muito tempo a tentar adivinhar. Chega-me saber que existe um turbilhão latente em toda a minha calma, só porque me permiti a dar sem me imp...

Olhos vendados

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Mesmo de olhos vendados , meu amor.. Vejo-te nas sombras dos beijos que ficaram por dar Imagino-te no chilrear dos lábios, Como se fossemos pássaros de asa ardente Mesmo de olhos vendados, meu amor… Oiço-te as emoções marulhadas no teu (nosso) mar Cheiro-te os anseios nos teus silêncios sábios Caminho-te com mãos de veludo em luar de mudez estridente Mesmo de olhos vendados , meu amor.. Colho-te afectos nos canteiros de flor encarnada Pressinto-te em espasmos de sorriso ardente Porque tu morres-me no olhar para me nasceres na mente Mesmo de olhos vendados, meu amor.. Vou amar-te numa escuridão sem madrugada Calar a minha aura com a tua presença de estrela intermitente Vontade de ser galáxia para que te embales em noite estrelada Mesmo de olhos vendados, meu amor… Eu encontro-te no breu dentro de mim e sussuro-te: É para sempre.

Feira das existências

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Eu não sei se tudo aquilo que sei, me fará saber-te melhor amanhã. Eu não sei se tenho aquilo que preciso ter para conseguir reter-te aqui, assim como estás agora. Talvez só consiga parar essa imagem tua, na retina do meu olho. Como se fosse espelho, não de alma mas, de vida feita de momentos que troquei, ou trocámos, por sorrisos que se rasgaram das (in)existências tristes. Não pensei que tivéssemos tantas nuvens para trocar por céus mais claros, ou calendários de noites com ares parados que leiloámos, tu e eu, à primeira licitação de beijos feitos de sol. Quem sabe que nada sabe é porque não tem nada a temer. Talvez apenas aprender como se fazem, e remendam, os retalhos de uma vida.

Twiggy

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Ainda a Claudia Schiffer era um projeto de pais solteiros, em 1966, já a Lesley Hornby se tinha tornado na primeira super-modelo internacional mais conhecida por Twiggy. Leve como uma folha, cabelito à rapaz e de longas pestanas, esta menina marcou um estilo e definiu uma época. Num ápice, a nossa Twiggy tornou-se no ídolo das adolescentes que participaram na revolução dos anos 60. Aos 17 anos, imaginem, a Twiggy magricelas era já uma das caras mais conhecidas do planeta. Chegaram até a colocar uma fotografia sua dentro de uma cápsula e enviaram-na para o espaço, não fosse algum E.T. ter dúvidas de como seria uma mulher gira do planeta Terra. Depois de ter conseguido ser a modelo mais espacial do mundo, teve ainda tempo para ser capa de todas as revistas de moda que importavam: Vogue, Bazaar, Marie Claire e todas as outras edições da especialidade. Strike a pose! :)

Pássaro contente

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Não há maneira de encontrar coisa melhor do que me perder dentro de mim. Perder-me nos bons pensamentos que me antecipam sorrisos. Peço um café escuro de breu e recosto-me na cadeira de vime que balanço irrequieto. Vejo pessoas, jovens, vel hos e crianças que cruzam caminhos e raramente oferecem olhares. Imagino destinos e vidas em cada um destes seres. Para onde vão? Aquilo que temem e aquilo que os faz sentir mais vivos são ideias que se tornam vivas em mim. Depois acordo no meio daquele lençol de pensamentos e abano a cabeça num meio-sorriso que só eu entendo. O meu café continua quente e bilhante. Negro, brilhante e cheio de nuvens. Naquele pedaço de céu reflectido no meu café passou um pássaro contente. Contente, porque não existem pássaros tristes. Voar e ser triste é coisa que não existe.

Amor, amore, amour

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Uma pesquisa no Google sobre a definição do amor devolveu-me dois resultados curiosos : A primeira definição caracteriza o amor como uma palavra que possui diversos significados. Por exemplo na Grécia o amor mais popular diz chamar-se ágape . Este senhor helénico auto-define-se como sendo o amor desprovido de interesse, do tipo que se tem, ou se deve ter, por qualquer pessoa. É o tipo de amor que incide no carácter do próprio indivíduo e o motiva a amar até os próprios inimigos, imaginem! Ainda mais engraçado, e sem sair da Grécia, a língua de Aristóteles é tão romântica que até tem várias palavras diferentes a significar o mesmo, mudando consoante o objeto ao qual se referem. Para grandes ou pequenos amores, grandes ou pequenas palavras! Depois de tanta informação sobre o vírus mais saboroso do mundo, eu resolvi procurar outras visões diferentes. E tanto procurei que acabei mesmo por encontrar: o amor é uma palavra de quatro letras, duas vogais, duas consoantes e dois idiotas. Ei...

Porcelana

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Há músicas que têm o poder de trazer à ideia imagens em movimento logo nos primeiros acordes. Acontece-me isso regularmente. Oiço uma canção que não ouvia há anos e ... záas! Lembro o momento Y com a pessoa X e também algumas palavras que foram trocadas nessa realidade que ficou para trás. Quando oiço Moby, e em particular o álbum "Play", volto a sentir-me instalado no sofá mais lilás e confortável que eu conheço. O sofá peludo da cor do vinho, que eu tinha no copo naquela altura, e o riso, também ele colorido, da Verónica. Lembro dos duelos de palavras. Das conversas em cascata. Da futurologia irónica que fizemos os dois com cumplicidades e nevoeiro de muitos cigarros. Hoje ela é psiquiatra porque cumpriu com o tal desejo pessoal que partilhou comigo no sofá. No sofá felpudo, fofinho e muito lilás. Penso que fui o primeiro paciente sem saber que o era. Fazer exercícios de psiquiatria no sofá, e não no divã, foi das melhores coisas que podíamos ter feito ao som de Moby. Gan...

Zapping

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Hoje em dia é raríssimo eu ver um qualquer episódio de telenovela, portuguesa ou internacional. Para falar a verdade não vejo sequer televisão, exceto o noticiário ou um outro programa que me desperte o interesse. Mas se eu pensar no concei to de telenovela, todo o conjunto da ideia do folhetim em cerca de 150 capítulos, parece-me desatraente e serôdio. Para além disso, uma das coisas que mais detesto é esperar. Não tenho paciência para seguir uma trama que muitas vezes se arrasta ad nausium, quando é óbvio que se houvesse bom senso entre os personagens, a situação retratada na cena era despachada na hora, sem necessitar de 4 episódios para que isso aconteça. Porém se o bom senso vingasse sobre todos os outros condicionantes num argumento para televisão, ou até cinema, não faria sentido a telenovela, ou qualquer outro produto de ficção. Isto é um facto. :) É por isso que eu prefiro muito mais o bom cinema. Existem tantos e bons filmes que merecem ser vistos, que não perco tempo a ...

Perguntem à Alice!

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Ela coçou o joelho lustroso e apoiou o queixo nos braços. Os olhos bonitos pareciam perdidos num horizonte que só ela parecia conhecer. Era dificil quebrar aquele olhar castanho quando ela se encontrava acastelada naquele universo tão hermético. Lá em cima, o céu cinzento embalava umas poucas de nuvens escuras que ameaçavam começar a chover. Como se o único motivo que ainda as detinha de lacrimejar fosse a presença dela naquele jardim, qual deusa ou ninfa de um um dossel de algodão cinzento. Não havia momento mais precioso no dia do que aquele em que ela podia finalmente estender-se na relva perto do canteiro de malmequeres. Fazia-o ritualmente todos os dias depois do almoço. Trazia sempre consigo um livro volumoso de contos de fadas, apesar de já ter passado a idade de acreditar em duendes e dragões, e debruçava-se sobre ele folheando-o com os dedos esguios. Muitas vezes detinha-se durante longos momentos a admirar as gravuras coloridas. Esboçava um sorriso e olhava para cima como s...

Deserto

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A vida é um deserto árido que cabe a nós povoar e preencher ao longo do tempo. Antes de conseguir criar um oásis, consegui primeiro plantar um pequeno arbusto e tentei fazê-lo crescer o melhor que soube. O arbusto teve alturas em que cresceu verdejante, outras ainda em que secou desmesuradamente. Aprendi então que a vida é sobretudo uma questão de tempo. Um universo de estações com consequentes metamorfoses. O importante é a adaptabilidade à circunstância, a evolução e a aprendizagem. Acredito tremendamente no acaso. Creio na perfeição da circunstância e na possibilidade de a capitalizarmos correta ou incorrectamente. Ser e Estar é aquilo que nos define porque determina aquilo que somos num mundo que mudou, muda e sempre mudará. O sumo da vida é felicidade expressa naquilo que somos e fazemos com prazer. Ainda não tenho um oásis mas tenho o arbusto que não vou deixar morrer.

Carta

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E se uma carta de amor assinada por ninguém chegasse às tuas mãos, o que sentirias? Meu amor, Sabes o quanto eu te amo? Tropecei? Caí? Perdi o equilíbrio? Rasguei o meu joelho? Rasguei o meu coração? Sei que te amo quando os meu olhos te vêem, Sei que a tua ausência faz arder a minha alma Nem um músculo se moveu. Folhas flutuam numa qualquer brisa. Os ares estão parados. Apaixonei-me sem ter dado um passo… Eu existo para te completar, Como vento que dança com a chuva, Numa valsa de inverno Quando me penteio Quando leio os meus livros Quando coleciono as linhas do teu rosto Quando não estou junto de ti Eu continuo… Sempre a querer pertencer-te

Perguntou-me

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O amor perguntou-me numa noite estrelada quanto tempo falta para florescer dentro de mim. Respondi-lhe que na primavera dos afetos, as flores crescem livres do jugo de uma qualquer  estação. A compaixão acordou-me numa madrugada qualquer e perguntou-me quanto tempo falta para inundar de bondade, todos os meus gestos. Sem pestanejar, respondi que as marés das boas ações são como o oceano, enchem e vazam a praia do coração enquanto ele continuar a bater. A alegria convidou-me para passear num bosque, e a meio do passeio perguntou-me quanto tempo falta para eu sorrir todos os dias até esquecer o que é uma lágrima. Respondi-lhe que se eu esquecesse o significado de uma lágrima, nunca poderia compreender a magia de um sorriso. Num jardim de encanto, a inocência chamou-me só para me perguntar quanto tempo falta para eu voltar a ser criança. Pensei alguns momentos e disse-lhe que uma criança já eu tinha sido mas que continuava a acreditar em fadas. Um dia deixei de ter encontros com as...

Ícone

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Apesar de nunca ter brilhado como grande atriz de renome internacional, o trabalho de Ursula Andress prova que o Cinema é sobretudo composto por momentos especiais e que, pela sua especialidade, eventualmente se tornam icónicos. A cena do bikini branco em "007 - Dr No" (1962) é um momento de brilhantismo cinematográfico e não foi necessário o recurso a uma atriz de formação académica para que a imagem alusiva a uma Vénus renascida nas águas se tornasse numa das maiores imortalizações instantâneas da Sétima Arte. Mais do que a primeira Bond Girl, Ursula Andress e a sua Honey Ryder, representa a essência pura da feminilidade inocente mas sensual, num periodo em que o Cinema ainda se apaixonava ad aeternum por um rosto ou uma figura.

Retro

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Hoje fala-se muito em retro. Isto ou aquilo é retro. Linhas retro. Objetos retro. Retro a quatro. E retro, enquanto conceito, aplicável a tudo. A palavra "retro" vem do prefixo latino retro que significa "para trás" ou "em tempos passados", muitas vezes significando um olhar nostálgico do passado. Se ser retro é gostar de cinema clássico, é cultivar lembranças, é perder horas em feiras de antiguidades, é só usar vestido aquilo que se gosta mesmo que nos perguntem onde é que estacionamos a máquina do tempo, então eu sou assumidamente um grande retro. Ainda jogo gameboy, borrifo-me para a Nintendo 3DS, uso jardineiras de veludo cotelê com joelheiras quando me apetece, coleciono vinil e adoro escrever à mão. Qualquer dia sou internado por ser... tão retro.

À mão

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Quem é que ainda sabe escrever um caderno inteiro? Quem é que ainda sabe passar para o papel uma caligrafia só sua, sem a vestir com o prete a porter Times New Roman, tamanho 12, com a folga de 1,5 para as bainhas? A haute couture da mensagem feita à mão está em desuso. Como estão os selos. E as cartas enviadas pelo correio também. Pergunto-me se até os bilhetes dobrados em quatro, a voarem numa sala de aula transformada em aeroporto temporário, estarão em crise. Devem estar moribundos. Os bilhetinhos de liceu agora são sofisticados: passaram a ter o poder de fazer vibrar o bolso do colega na primeira fila que, disfarçadamente, consulta o telefone e retribui na mesma moeda. E os contratos e as assinaturas? Já pouco se levanta a caneta para vincar com tinta o papel. Dizem que a assinatura moderna é digital e pode ser usada mil vezes. O nome fica embalsamado num ficheiro de imagem e assim ninguém se engana a assinar. Trigo limpo, farinha Amparo! Até as cartas que se extraviavam porque...

Tilt

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A malta da minha idade sabe o que é um salão de jogos. Sabe como soava a música de dezenas de máquinas a funcionarem ao mesmo tempo como se fossem uma sinfonia eletrónica sem maestro. Sabe como era agreste entrar no salão quando se tinha menos de dezasseis anos e, melhor ainda, sabe como era possível enganar o responsável da casa com maroscas e trapaças adolescentes para que ele não corresse connosco dali para fora. Mais importante do que isso, a malta da minha idade soube, e sabe, como era fazer render uma moeda de cinquenta escudos o maior tempo possível. É isso. O maior desafio de todos no velho templo dos jogos arcade era conseguir jogar horas a fio com uma única moeda. Por isso a frase "Insert coin" era a frase que mais detestávamos ver no ecrã. Preferíamos ver escrito "Hall of Fame" onde colocávamos orgulhosamente o nosso nome com três letras apenas. A grande festa acontecia quando o técnico da máquina, ou o senhor que fazia a colecta das moedas, nos dava c...

Era uma vez

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"Era uma vez", são as palavras que começam sempre os meus sonhos. Isto porque eu sou metáfora com música num mundo de imagens imaginadas contigo, tal qual tu fosses um livro de encantamento. Por ti, eu pulei de uma qualquer página para pisar a tua realidade, e assim libertar-me do espartilho dos parágrafos e do papel. Atravessei capítulos inteiros e enfrentei todos os dragões e bruxas más que encontrei pelo meu caminho até ti. Trago aqui comigo as gravuras coloridas, de uma história bonita, e também uma mensagem feita com uma moral cor-de-rosa. Guardo as cores das aguarelas, que pedi emprestadas às figuras desenhadas, porque posso mais tarde querer mudar a cor do teu espírito. Posso torná-lo azul celeste para receberes o Peter Pan e os meninos perdidos, ou talvez preto ébano para que possa contrastar na tez alva da Branca de Neve. Tu dizes-me que os meus sorrisos são fábulas que te convidam a dançar aventuras e eu, ainda mais sorridente, solto dos lábios um assobio marot...

Paciência

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Umas das desculpas mais famosas do mundo e que, ainda por cima, serve para tudo é o célebre "Eu não tenho paciência!". Não há paciência para o tempo que demora a passar e muito menos para a situação que não desejamos viver e que somos obrigados a gramar. O irónico é que essa paciência, ou a falta dela, é um dos motivos que mais rupturas causa. Quem não tem paciência muitas vezes não goza aquilo que tem para gozar. Há relações que acabam por falta de paciência, há discussões que se incendeiam pela falta de paciência de uns e outras que descambam em agressão pela falta de paciência de outros. Para muitos a paciência é sinónimo de virtude-miragem que, por ser trabalhosa, só alguns conseguem atingir. Ter paciência é muito mais do que tricotar uma colcha de bilros ou saber esperar desde as sete da manhã na fila para a Segurança Social. Paciência é energia e não resignação. Para muita gente ela não passa de uma forma menor de desespero mascarada de virtude. Mas estão enganados c...

Ser ou não ser

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Ser ou não ser uma boa pessoa. Ou melhor, tentar ou não tentar ser-se sempre melhor é cada vez mais difícil. Com os mal-entendidos, as más interpretações, a falta de paciência, a sobrevivência de cada um social, emotiva ou profissionalmente, tudo isto treina cada um de nós a ganhar o dia como se de uma prova se tratasse. Depois há os conflitos, as invejas e as invejinhas, o diz que disse e o toma lá que já almoçaste, que fazem com que seja tarefa dura ser uma boa pessoa. Ainda há quem confunda a bondade com a fraqueza. Parece que vivemos num sítio onde se acredita que quem é bom tem de ser fraco ou então um grande otário. É assim na fila do supermercado, no pagamento dos impostos, na fila para o autocarro ou em qualquer outra situação na qual se pense primeiro no outro do que na satisfação da nossa necessidade inicial. Ser bom não dá. "Se fores bom vais ver que te passam a perna!", dizem. É tão difícil sermos boas pessoas que quando o estamos a ser, há quem ache que esta...

Oz

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Há alturas em que termos uma estrada de tijolos amarelos a indicar-nos o caminho certo seria perfeito. Quando estou numa dessas alturas já experimentei bater com os calcanhares dos meus ténis, a ver se funciona, mas tudo o que aparece em amarelo é a desilusão da dor nos pés. Ok. Para todos os problemas a única estrada possível é seguir-se em frente e enfrentar o feitiçeiro. E já não bato os calcanhares, dou-lhe com os ténis na cabeça.

Os aviões

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Não gostei na primeira vez em que a ouvi e continuo a não gostar dela agora. A música "Anda comigo ver os aviões" dos Azeitonas é um sucesso em loop constante nas rádios portuguesas e para mim é um tema chato com direito a um par de galochas. Não vejo nada poético em ir ver aviões ao aeroporto da Portela. Ou em trazer a América até aqui se não formos nós lá. Melhor fez o Maomé com a sua montanha. Mais romântico seria visitar um cemitério de aviões ao luar. Imaginar batalhas. Adivinhar cada buraco de bala na chapa e contar as terras por onde voou o avião antes de morrer. Ou jogar um jogo de imaginação com consequência: por cada resposta menos coerente, castigar com um beijo quem está connosco. Sentar no cockpit vazio e contar as estrelas. Acreditar que podemos acendê-las na noite ao toque de cada um dos cem botões em frente ao piloto e co-piloto. Não gosto da música dos aviões. Prefiro voar de outra maneira diferente.

Miau

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Vem aí, para animar o verão, mais um filme do Batman realizado pelo Christopher Nolan, que já fez alguns com o Christian Bale, Katie Holmes, Heath Ledger etc. Antes dele o Joel Schumacher tentou a sorte com o George Clooney, o Val Kilmer, Alicia Silver Stone, Arnold Swarzenegger e o amigo Robin, Chris O'Donnell. E claro, o pai do Batman para cinema, o Tim Burton que realizou dois filmes com o Michael Keaton, a Kim Basinger, Jack Nicholson, a especial Michelle Pfeiffer. Eu gosto especialmente do trabalho do T. Burton que conseguiu apanhar o elan de Gothan City como nenhum outro conseguiu. Diz que este novo filme vai trazer de volta a cat woman mais assanhada do que nunca. Não sei. Se ela conseguir fazer melhor do que a gatinha Pfeiffer, eu compro-lhe um Whiskas saquetas. Meow!

Tempo de amar

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Não sei se será a crise do amor ou antes a emancipação do individualismo moderno, mas a verdade nua e crua é que a maioria de nós não está preparado para gramar com as crises conjugais. Para crise já basta a depressão económica que, não nos ponhamos nós a pau, já nos dá conta do juízo. Em tempos e conjunturas diferentes, os nossos avós foram grandes campeões do gramanço mútuo em tempos difíceis. O avô trabalhava e a avó ficava em casa, e por isso ela dependia dele, mas mesmo sendo ela dependente como uma menina ainda em casa dos pais, ela sorria e passeava na rua de braço dado com ele. Havia a guerra mundial, o racionamento e a alçada paternalista do Estado Novo mas o que era isso quando havia companheirismo e amor? Às vezes discutiam e havia zaragata a ver quem falava ou gritava mais. Pois com certeza que devia haver. Mas em vez de falarem em separação, ou na figura jurídica do divórcio que eles só conheciam de ter ouvido falar nos filmes americanos, a maioria dos nossos avós prefe...

SOS verão

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Dá sempre jeito o número de apoio a clientes em qualquer serviço. Pena que nem tudo seja de reclamação fácil. Quero reclamar deste verão de 2012, muito quentinho qb, mas muito "inho" para o meu gosto. Aquece mas não escalda. Sabe bem mas não delicia. Melhor do que o inverno mas muito "inhozinho" para que chegue a ser um estio à séria. Alguém sabe o numerozinho da assistenciazinha a clientes para as estações do ano? Quero trocá-lo. Ainda deve estar dentro da garantia.