O teu perfume
No teu perfume eu encontro motivos para te fazer viver para sempre. Na minha memória, bem entendido. O teu cheiro quando vinhas para casa, molhada da chuva, com o cesto de vime cheio de legumes a emoldurar o peixe que tu escolhias sempre fresco. Ou o aroma dos teus beijos na minha face, quando me convencias a ir para a escola, quanto tudo aquilo que eu mais queria era continuar a estar contigo. Sem desenhos parvos e colagens absurdas que eu fazia com os outros miúdos na sala de aulas. Contigo, as horas eram festas e as tardes eram carnavais de histórias que tu me contavas, para me convencer a dar mais uma garfada. Não eras a minha mãe mas talvez fosses personagem de um patamar superior. De um livro de contos. Ou uma faixa de um disco, já muito riscado, que eu ouvia vezes e vezes sem conta contigo ao pé de mim.
Tudo o que tenho de ti, agora, são fotografias com sorrisos teus e o teu perfume, que por vezes muda consoante a memória que tu deixaste. Como podes tu já não existir, se eu ainda te tenho guardada em aromas e movimentos teus, quando eu fecho os olhos? É o meu grande paradoxo. Uma certeza absoluta que eu tenho mas que não poderia mostrar aos outros se assim quisesse.
Sabes que às vezes eu penso que posso falar contigo nos meus sonhos? Deito-me a pensar que vou poder controlar um sonho, que ainda vou ter, e aí vou conseguir agarrar-te para guardar novas palavras tuas, diferentes das que já tenho e sei de cor, e talvez até ter o poder de trazer-te comigo para o dia de amanhã. Mas isso nunca acontece. E talvez nem tu quisesses caminhar aqui outra vez, se pudesses escolher, porque isso já não te faz sentido. Resta-me o teu perfume.... um cheiro suave a flores no escuro do cinema, que alguma senhora teve a ideia de usar durante o filme; ou um aroma a caramelo derretido numa pastelaria qualquer em que eu entre, e que me vai fazer lembrar os bolos que tu fazias a meu pedido. Não há dia de chuva, birra de criança que não quer ir à escola, bolos quentes ainda a cheirar, perfume de rosas a dançar no escuro ou uma avó que lê uma história aos netos no jardim que não me faça sorrir sempre com a tua imagem guardada, que eu torno a ir buscar. Sempre.

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