Ser viajante
Prefiro ser viajante do que ser turista. É mais interessante a filosofia da descoberta do que a filosofia do livro de bolso. O viajante é sempre livre e o turista, muitas vezes, só é livre no dia em que não tem atividades pré-programadas. E depois há sempre um motivo para a viagem. Os turistas têm sempre um destino certo enquanto que os viajantes têm apenas um objetivo: seguir com a viagem. E por falar em viagem, os viajantes fazem da Ásia, ou de outro lugar qualquer, uma viagem maravilhosa. Já os turistas preferem focar-se no destino final e em vez da viagem maravilhosa à Ásia, eles costumam fazer a viagem à "Ásia maravilhosa". É diferente, não é?
Dizem que o dinheiro faz girar o mundo. E de facto sem dinheiro é difícil viajar muitos kilómetros com conforto. Estamos de acordo. Mas até neste ponto parece-me que os turistas quando viajam, fazem-no sempre com dinheiro para os seus souvenirs porque não arriscariam viajar se assim não fosse. É essa a sua principal preocupação. Os viajantes, por norma, podem não ter muito dinheiro para lembranças mas estão sempre cheios de uma coisa importante: a criatividade.
Depois vem o critério da própria experiência em si. Conheci muitos turistas que sabiam de cor todos os recantos do resort onde ficaram. Conheciam sempre os melhores quartos, a melhor piscina, o melhor spot para estender a toalha e quanto a restaurantes, sabiam imediatamente quais os melhores de todos para recomendar aos amigos mais tarde. Sempre que eu falei com algum viajante, ele nunca sabia nada disso. Em vez de falar em gastronomia a la carte, o viajante discursa sobre a população e sobre as suas tradições.
Quando uma viagem pressupõe uma itinerância urbana, os turistas são grandes mestres em ir de uma cidade para outra com toda a rapidez. Os viajantes na mesma situação, não vão de um ponto a outro. Em vez de ir, percorrem. Calcorreiam e levam o seu tempo mesmo que tenham de gesticular ou semi-falar no idioma local, para conseguirem indicações dos nativos. E a questão da língua? Quando o assunto é a língua o turista, esteja ele onde estiver, saca logo do seu inglês Shakespeariano e diz " Where's the market?". Depois espera pela resposta e quando ela não vem, fica admirado com a ignorância de alguém que não domina o idioma universal do turismo. O viajante por sua vez, tende a ser mais tolerante. Pode não saber falar hindi, chinês ou singalês mas tenta por mímica e pela teatralidade fazer-se entender: "Ondeeeee FI-CA o MEEEER-CAAA-DOOO?". Às vezes até resulta e outras vezes ficam sem as informações que queriam, mas fazem o interlocutor rir com a macacada. São mais bem dispostos, digo eu. Isto também se aplica quando vão às compras ou fazer a refeição fora. Os turistas quando não conseguem concretizar o seu pedido, desistem logo e pedem outra coisa qualquer que seja mais simples. O viajante é mais persistente. Se não chega lá pela comunicação verbal, resolve iniciar um jogo de mímica nem que para isso tenha de imitar uma galinha para poder comer um panado de frango.
Eu acho que já fui as duas coisas. Um turista e um viajante. Por isso creio que são dois mundos diferentes. O pior é que ser as duas coisas ao mesmo tempo não é nada fácil. Eu já tentei.

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