O vendedor de sonhos




Se há coisa que eu gosto de fazer, é ler. Especialmente romances. A literatura técnica pode ser muito interessante e necessária, é com certeza, mas eu prefiro a ficção. Dickens, Somerset Maugham, Doyle e, na minha língua, José Luís Peixoto, são os autores com quem eu gosto de “ir à pesca” Com este grupo há sempre a garantia de uma boa pescaria. Eles lançam o isco nas primeiras páginas e eu não me importo mesmo nada de ser a carpa daquele mar de letras. Mordo o anzol e deixo-me sacudir à tona dos parágrafos que eles sabem ondular com grande mestria.

Costumo encontrar-me com eles nas livrarias antigas. Alfarrabistas ou lojas de livros em segunda mão. Quase nunca nas grandes superfícies comerciais. Sabem-me melhor os livros usados que alguém já manuseou e sentiu. São coisas minhas! Prefiro as metáforas que já foram lidas e interpretadas por outros olhos, sobretudo se estiverem estampadas em papel amarelecido pelo tempo.

Na minha cidade há uma loja que eu conheço desde sempre. Uma loja sempre igual, não importa quantos anos tenham passado, e com as montras carregadas de livros velhos, pequenos, grandes e de todos os formatos. Em miúdo, eu passava muitas vezes por esta loja para comprar ou trocar os meus livros já muito lidos. Troquei a banda desenhada do Walt Disney pelas aventuras dos Cinco da Enid Blyton. Depois de os ter consumido, tornei a usá-los como moeda de troca pelos livros da Anais Nin. E depois de ter encontrado uma “Espia na Casa do Amor”, resolvi trocá-la por outra casa qualquer que tivesse uma decoração diferente.

Andei sempre nisto. A substituir um mundo por outro completamente diferente até conseguir identificar qual o terreno estupendo para estacionar a minha nave feita com vontade de ler.

Foi durante esta odisseia, cíclica, que eu conheci o Charles Dickens, o Sir Arthur Conan Doyle, o Somerset Maugham e, o contemporâneo, José Luís Peixoto.

Hoje passei na tal loja, que eu conheci sempre igual, e descobri como ela estava diferente. Mais magra de livros. E em vez do senhor de idade que passava a vida a ler atrás do balcão enquanto o cliente percorria as prateleiras abauladas, estavam duas meninas adolescentes a vender cada livro a 10 cêntimos. Já não havia trocas. Nem negócios feitos com tempo enquanto se discutia o valor do autor ou o estado do livro.

Não perguntei pelo senhor de idade mas imagino que ele não volte à loja para ler atrás do balcão ou para jogar xadrez com os amigos durante os momentos mortos. Imagino também que uma das meninas seja neta e que, para ela, os livros fossem tantos que o melhor a fazer seria vendê-los a um preço bem barato. Aquilo que ela não sabe, imagino eu, é quão valiosos foram os sonhos que o avô dela me vendeu um dia.

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