Palavras por dizer
Uma coisa tão simples e natural como a morte, pode ser ao mesmo tempo uma das coisas mais complexas e difíceis de entender. Sobretudo quando se sente a ausência de quem partiu em toda a sua força. Aquilo que me dói mais na morte não é a ideia do fim ou do deixar de existir. Dói-me muito mais o tempo que se ganha, com a ausência, para se poder preparar as palavras certas a trocar com quem já não as poderá receber. Com esse tempo ganho, imaginam-se os momentos em que se disse tudo aquilo que havia por dizer. As frases saem completas. Ricas. Vírgula por vírgula. Ponto por ponto. Tudo isto porque a ausência total de alguém importante faz-nos perorar sobre aquilo que devia ter sido dito e não foi.
Está a fazer quatro anos que o meu pai morreu. Parecem-me décadas, estes quatro anos, porque o tempo tornou-se lento de propósito para que eu pudesse avaliar a importância que ele tinha na minha vida. As palavras que eu não disse ao meu pai, vou guardá-las para mim para lhes dar corpo com as minhas atitudes. Ou melhor ainda, vou aproveitar a oportunidade do agora para as oferecer a alguém igualmente especial. Para que nunca mais fique nada por dizer.

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