Um livro



Há histórias de amor com diferentes cores. Há amores que são vermelhos de tão intensos, há amores azuis que trazem consigo toda a calma dos céus de primavera, e ainda outros que são paleta de todas as cores em sopa colorida, tão colorida que nem o próprio amor conseguiria servir-se de todas as tintas no seu auto-retrato, se assim quisesse.

“O paciente inglês” de Michael Ondaatje é muita coisa ao mesmo tempo mas será, sobretudo, uma história de amor servida por um romantismo da cor do deserto com todas as suas nuances e degradés.

Nas palavras itinerantes de Ondaatje, o amor faz-se por diferentes caminhos porque, sendo complexo e denso, não tem uma rota traçada a priori nem um mapa que dê as coordenadas exatas dos afetos dos personagens.

O deserto do Sahara e a planície bucólica de Itália servem de palco a uma história marcada pelo rescaldo da segunda Grande Guerra, onde presente e passado se misturam numa teia de constantes analepses.

Amor, traição e tempos difíceis desembocam num enigma poético, dissolvido nos parágrafos de Ondaatje, onde nenhum dos protagonistas é casto ou isento de culpa, porque de uma forma ou de outra, os fantasmas do passado e os espectros do presente marcam presença nas vidas de Laszlo de Almasy, o paciente inglês nesta história, ou de Hana, a enfermeira canadiana em voluntariado durante a guerra.

A cartografia desconhecida do Sahara e o peso quente do seu sol são o contrapeso perfeito para a angústia de um homem em busca da identidade perdida, prisioneiro que está das suas memórias fragmentadas. A construção dessa consciência vital, esculpida por angústias pessoais, e por lembranças em segunda mão apontadas na margem de uma obra de Heródoto, são a razão do viver de um homem que quer muito lembrar para finalmente poder morrer.

Em Ondaatje, o deserto é tão árido como o amor vasto que não pode ser.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

A vida

Que seja!

Romance