Sr.professor
Não entendo, ou não quero entender, quando dizem que hoje os alunos já não são como eram no tempo em que eu andava no liceu. Dizem que eles agora são diferentes. Que não acatam instruções com a subserviência devida. Que não toleram as correções merecidas e que até se indignam quando são chamados à atenção com alguma autoridade.
Imagino que, se assim é, a maioria não recordará o nome, nem reconhecerá o rosto dos professores que tiveram nos tempos de escola, volvidos 20 anos sobre o fim do ensino secundário.
Das dezenas de professores que me ensinaram qualquer coisa em 12 anos de idas ao quadro negro, eu garanto que consigo recordar as feições e os nomes da maioria, consigo reviver na memória o seu tom de voz e até consigo lembrar, estou certo, grande parte dos conceitos que debitaram e se esforçaram, a maioria deles, para que ficassem até hoje na minha cabeça.
Bem vistas as coisas, à distância de 20 anos, foram coleções de disciplinas que eu tive de guardar na caderneta do saber. Foram declinações de alemão e outras tantas de latim, foram equações do 1º e do 2º grau que terminaram com a passagem para o 10º ano, foram obras clássicas da literatura portuguesa que eu tive de ler, numa altura em que as sebentas resumidas não estavam na moda, e outras que tais matérias que ainda hoje consigo recordar se me esforçar um pouco.
Ora se eu consigo fazer isto que falei sem ter tido um passado de Internet, sebentas instantâneas, quadros interativos, iphones e Photoshop, aulas de compensação, atividades extraordinárias de línguas ou até modalidades desportivas e artísticas, eu só posso acreditar que os aprendizes de agora serão, e têm mesmo de ser, melhores do que eu fui alguma vez. É que há uma coisa que resiste à passagem do tempo e às transformações sociais: a curiosidade pura. Quem é curioso e cultiva a curiosidade, acaba mesmo por saciá-la.
Podem dizer à vontade que a curiosidade matou o gato, porque para mim a curiosidade em que eu acredito, é aquela capaz de preparar para o futuro.

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