Morangos da vida
Aos 37 anos é muito provável que eu já tenha caminhado metade do percurso que tive, e tenho, pela frente. Andei muitas vezes às escuras, a tropeçar nas pedras do chão que não soube ver a tempo, mas outras vezes, pelo contrário, passeei alegremente e fui conversando com os amigos que fiz pelo caminho. Com tombos ou passeatas de mão dada, valeu tudo a pena. Só há uma coisa que é muito diferente agora: as minhas prioridades e a gestão do meu tempo. É como se o meu cesto de morangos esteja agora meio cheio, ou meio vazio, e eu já não tenha a mesma disponibilidade para os ir deixando cair sem me importar com isso, ou para os dar generosamente sem olhar a quem, ou ainda para simplesmente os deitar fora, como fazia antes, ao mínimo defeito que detetasse na polpa vermelha. Já não faço nada disso.
Agora os meus morangos, o meu tempo, são geridos com austeridade. Já não acato conversas que não me levam a lado nenhum. Já não deixo qualquer pessoa entrar na minha vida para que saia à mínima frivolidade, nem estou disponível para fazer aquilo que não quero nem me apetece.
Aos 37 anos, ainda longe da morte do morangueiro, eu espero, já não trago no cesto morangos sumarentos e resistentes a tudo. Só são resistentes e saborosos para quem eu achar que merece realmente a pena. Vistas bem as coisas é esta a principal vantagem de se ter chegado à meta para lá dos 30 anos. O cesto pode até estar depenado por causa da incúria que abundou no passado, mas por outro lado, e com um pouco de sorte, a metade dos morangos que sobram serão geridos com uma nova sabedoria que se ganhou pelo caminho feito. Toma lá morangos!

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