Amor romântico e outras pinderiquices



Vamos lá deixar cair as barreiras e admitir de uma vez por todas, os cínicos, os rabugentos e os ensimesmados também, que no final de contas aquilo que todos querem ter um dia, e não vale dizer que é o sexo ou o companheirismo fraternal, é sem tirar nem pôr uma coisa que seja o mais próxima possível do amor romântico. Falo daquele amor grande, gigante, dos livros clássicos, dos filmes para fungar e das histórias que parecem acontecer só aos outros, sempre com imunidade à rotina e às contas por pagar. O único senão é que nesse universo tão inspirador, é costume morrer sempre alguém no apogeu do ato cor-de-rosa ao invés da longevidade rotineira que nos abraça todas as manhãs.

Imagine-se um amor que não seja trágico nem toldado pela disparidade social doutros tempos. Um amor moderno, estão a ver? Que seja um elo entre duas pessoas contemporâneas do Obama, ou das travessuras do Passos Coelho, e que seja também um exemplo de bravura com várias dificuldades ultrapassadas, com frases perfeitas ditas um ao outro, daquelas que até dá vontade de partilhar nas redes sociais, com troca de beijos ao luar de agosto e uma vontade honesta de estar com a outra pessoa para sempre. Sempre? É, sempre, para sempre!

Há quem o procure na maior estrada do mundo, com encontros no Badoo, diálogos no Meetic ou com um brinde de likes no Facebook, e há quem o cace com os pés firmes no chão e os olhos lânguidos longe do ecrã. Não sei se haverá diferença. De uma maneira ou de outra, explicação menos explicação, motivo menos motivo, emoção menos emoção, eu creio que todos querem apanhar o mesmo pássaro: uma ave canora que não fique rouca nem perca a plumagem vistosa. Talvez o problema de alguns, para falhar miseravelmente na caça ao pássaro, seja a miopia egoísta que não deixa dar o tiro certeiro, que é sempre ao lado, ou pelo contrário, quando com o rouxinol na mão, não encontraram melhor prova de amor do que uma gaiola com dois bebedouros.

É urgente o amor, dizia Eugénio de Andrade. É urgente, necessário e não é pegajoso quando dito ou praticado. Pegajoso é não tomar banho durante dois dias! Por isso, prepara a espingarda, faz pontaria, deixa-te de lérias, que o pássaro vai passar sobre o teu nariz…

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