Enfim sós...
Às vezes gosto de estar só. A solidão não me assusta, dado que é uma escolha que posso fazer, de livre vontade e durante o tempo que também me apetecer. Se, porventura, fosse imposta, creio que, por teimosia e contrariedade, não gostaria nem um bocadinho da solidão.
Estar só é estar na minha
absoluta companhia, é ouvir-me sem distrações, é contemplar tudo
com calma e reflectir, sobre mim, sobre o mundo, sobre tudo. Estar só
implica dialogar connosco mesmos, indagar acerca de coisas que na
companhia de outros nos passariam ao lado, exactamente porque na
companhia de outros não somos o nosso centro das atenções.
Gosto de estar só, de viajar
apenas com uma mochila por companhia, descobrir locais apenas com a
ajuda de um mapa e calcorrear ruas polvilhadas de gente apenas, e só,
comigo. Não é egoísmo, não é excentricidade, é um prazer imenso
que nasce da alegria de descobrir no relógio horas que são só
minhas, minutos inesquecíveis só meus, segundos de silêncio
dourado que me preenche.
O silêncio é necessário. O
silêncio faz falta para que se oiçam outras coisas com mais
atenção, nem que seja, por alguns instantes, o bater do nosso
coração. E é no silêncio absoluto da solidão que nos damos conta
que estamos vivos, que pulsa dentro de nós uma energia formidável,
uma alegria simples, vista e sentida à luz do que é mais simples e
fácil.
O silêncio, de mãos dadas
com a solidão, assustará grande parte das pessoas que se apressam,
desenfreadas, a encontrar maneira de se verem rodeadas por gente,
muita gente e às vezes, tantas vezes, gente desnecessária.
Eu não tenho medo da solidão
porque me conheço bem e consigo lidar bem comigo, com os meus
pensamentos, angústias ou medos. Preenche-me saber que tenho tempo
de qualidade comigo, tempo útil para reflectir, para me abandonar às
minhas ideias e às minhas fantasias.
Não sei se já te aconteceu,
mas na solidão as coisas revestem-se de outra beleza porque não há
nada entre ti e elas que lhes apague um só bocadinho do que são.
Imersos na solidão contemplamos, ouvimos, sentimos com cada batida
do nosso coração, com cada centímetro da nossa sensibilidade, com
cada palmo de nós.
Não sou um ser esquivo, um
vulgar “bicho-do-mato”, mas encontro em mim coragem suficiente
para me enfrentar e aprecio a solidão.
Há pessoas que têm ataques
de pânico só de pensar na eventualidade de irem sozinhas ao cinema,
de se sentarem sós numa esplanada, de olharem o mar sentadas na sua
toalha, rodeadas por desconhecidos ou de ficarem em casa, entre
quatro paredes, a sós com os seus pensamentos. A mim, essas
situações tranquilizam-me, agradam-me e por vezes oiço dentro de
mim uma voz que grita e que clama por um momento a sós.
Peço-me para ficar só. E se encontro nisto uma paz
imensa, questiono-me se haverá mais quem partilhe desta necessidade,
destes momentos de introspecção, desta massagem ao espírito que me
embala numa calma tremenda.
Entro só numa sala de cinema,
sento-me só no areal ou numa esplanada e quase que me dá vontade de
rir quando sinto cravados em mim os olhos de pena dos outros, dos que
acham que estou ali, sem companhia porque sou um ser solitário e
desprovido de amigos… Olho-os, também com olhos de pena, porque
ainda não descobriram que, às vezes, mais vale só, do que mal
acompanhado…

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