Dói
Dói muito uma dor de dentes. Dói também uma infecção no ouvido. Dói ainda uma luxação nos músculos. Uma agressão, um sacudir violento, um pontapé, um murro bem assente, doem tanto. Mas mesmo doendo muito, doem mais do que a ausência? A (não)presença de um ser querido que já não está. Um pai que vai embora e não volta. Um irmão ou irmã que não está perto. Um amigo que perdemos no tempo e não encontramos mais. Uma cidade que conhecemos e à qual não voltámos. Um prato favorito que deixou de ser confeccionado. Um sol radioso que se perdeu nos dias de chuva. Uma vida que passou e não a agarrámos. As histórias da avó que não ficaram escritas. As palavras perfeitas que dissemos e não escrevemos. Doem muito mais todas estas coisas.
A maior das dores é a saudade do amor. Uma saudade feita dos beijos dados, dos cheiros que se registaram e que o tempo não apaga. Aquela saudade de uma voz que conhecemos tão bem o timbre mas que não a ouvimos mais, porque não se materializa. Saudade de uma ausência forçada ou até mesmo de uma ausência institucionalizada pelas duas partes. Tudo isso ultrapassa os limites físicos da dor.
Por isso a verdadeira saudade é no fundo não ter conhecimento. Ignorar o que acontece. Desconhecer aquilo que se passa e, sobretudo, não fazer a mínima ideia do que fazer com aquele silêncio que não consegue preencher absolutamente nada. Desconhecer a extensão para lá da morte mas querer acreditar que ela existe. Guardar momentos perfeitos mas irritarmo-nos por não conseguir incluir infimos pormenores. Emocionarmo-nos com aquela canção que ouvimos, mas não termos por perto a pessoa que a inspirou em primeiro lugar. Ignorar, de todo, se o nosso melhor amigo de infância casou, teve filhos e é feliz.
Por outro lado, a saudade também tem um pedaço chamado de ignorância consciente. Querer ignorar se quem nos deixou está bem. Se está feliz e melhor do que aquilo que estava. Se está mais bonito ou bonita. Se tem os mesmos defeitos ou se continua a gostar das mesmas coisas. É assim a nossa saudade. É um nunca mais querer saber de quem se ama ou amou, e mesmo assim, ainda doer muito.

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