Indiana Jones e eu



Hoje fui ao meu baú de boas recordações. Encontrei misturado entre centenas de outros momentos deliciosos, aquele dia de Outubro de 1984 no qual o meu pai me levou ao cinema à estreia do filme Indiana Jones e o Templo Perdido.

Nesse ano eu estava na 4ª classe, tinha 9 anos e alimentava uma curiosidade do tamanho do mundo. Apesar dos alertas que recebi para não ver o filme por ser violento de mais para um menino da minha idade, insisti ad nausium para que me deixassem ver o filme, que afinal tinha como protagonistas um herói arqueólogo, uma cantora relutante e um menino chinês da minha idade. Se não era suposto as crianças verem este novo capítulo do Indiana Jones, por que carga de água deixariam um miúdo de nove anos viver esta aventura cheia de emoções e perigos?

O meu pai sorriu com os meus argumentos. 'Queres ver o Indiana Jones, então eu levo-te a vê-lo e não te queixes depois!'. Fiquei satisfeito. O meu pai confiava em mim e pela primeira vez aceitou os meus argumentos desesperados para o convencer. Lembro-me que a sala de cinema da Academia Almadense estava cheia, e que eu não era a única criança com ordem de soltura naquela noite mágica.

O filme começou como um musical extravagante, daqueles que o meu avô tanto gostava de ver e me mostrava, e continuou como um filme de gangsters onde o herói vence os maus e leva a menina loira para casa. Lembro-me de ter achado que a senhora do filme gritava muito e passava a vida a meter-se em confusões. Pensei que com aquele tamanho todo, ela devia ser mais corajosa e menos queixinhas. Quem me conquistou completamente foi o menino chinês. Que grande sortudo! De uma vez só, conduziu um carro, saltou de um avião sem pára-quedas, andou de elefante, num pequeno Dumbo só para ele, e ainda teve tempo de salvar centenas de outros meninos do trabalho escravo numa mina.

Quando o filme acabou, lembro-me de ter oferecido um sorriso enorme ao meu pai. 'Foi o filme mais giro que vi até hoje, pai!' disse-lhe eu ainda excitado minutos depois do filme ter acabado. Continuámos a caminhar pela Rua Capitão Leitão até casa, enquanto eu o inundava com perguntas sobre esta aventura. 'Pai , é mesmo verdade que há pessoas que arrancam o coração às outras para depois as lançarem num poço de fogo?' - perguntei.

'Não filho, é só um filme. É a imaginação dos artistas que fazem cinema. Ninguém arranca corações a ninguém!' dizia-me ele cheio de paciência. Chegados a casa, eu sentia-me agitado de mais para conseguir dormir. Mas como o dia seguinte era dia de escola, tive mesmo de me deitar e tentar dormir. O meu pai despediu-se de mim, passou-me a mão pelo cabelo desalinhado e deixou a pequena luz da mesinha de cabeçeira acesa.


Em menos de uma hora, toda a casa caiu num silêncio absoluto. Já não ouvia os passos da minha mãe, nem a voz do meu pai e muito menos as brincadeiras da minha irmã mais nova. Fechei os olhos com força e concentrei-me na tarefa árdua de adormecer sem as imagens de um templo gigante com homens maus a cantar em coro. Estava a ser complicado conseguir dormir serenamente, porque todo aquele silêncio era preenchido pela minha imaginação ávida de epifanias trazidas do cinema.

Pé ante pé deixei o meu quarto. 'Pai, eu sei que não se arrancam corações mas preciso de tempo para me habituar à ideia!' O meu pai abriu o lençol e ofereceu-me algum espaço na cama dele. Fechei os olhos confiante e sem medos. Afinal, se o miudo chinês não tivesse o Indiana Jones também estaria cheio de medo. Ora aí está. Eu também precisava de um Indiana Jones, pelo menos ... por uns dias.

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